Destinos entrelaçados - Sheila Guedes

"Clara Andrade acredita sempre no melhor que cada um
pode dar. Para se afastar dos problemas de casa, vai passar
suas férias na casa de praia dos seus pais. . Numa manhã de
mar agitado, salva o misterioso Théo do afogamento.
Théo Diniz foi criado apenas por sua mãe. Após sua morte
ele decide resgatar sua história e acertar as contas com o
seu passado.
O encontro inesperado entre os dois os lança em um emaranhado
de emoções e a paixão é instantânea. Théo busca
vingança, Clara busca paz e um segredo do passado pode
acabar com as chances desse amor.
Será que o amor é capaz de fazê-los superar toda a dor?" Sinopse retirada do Skoob.

Quem me acompanha há bastante tempo, sabe da minha preferência por romances açucarados, daqueles bem perfeitos e cheios de declarações - pois bem, eu já não gosto mais tanto assim. E tirando alguns detalhes que logo explicarei, é só por esse motivo (gosto pessoal atual de leitura) que Destinos Entrelaçados não me fez ficar louca de amor (e não me desidratou de chorar).

Clara é uma personagem fácil de gostar, ela é simples apesar da vida de luxo, é bem na dela e "confortável dentro de si". Não é impulsiva nem uma rebelde sem causa. Está vivendo um momento tenso dentro de casa e por isso resolve se afastar, já que o problema não a envolve diretamente. Do outro lado está Théo, um cara bem bacana e levemente conquistador, que tem lá seus problemas e segredos e encontra na enseada, assim como Clara, um refúgio. Mas ambos sabem que precisarão encarar a realidade, só não esperavam ter os caminhos cruzados e um envolvimento entre eles pudesse interferir na "vida real" a ponto de separá-los de forma tão drástica.

Como todo o início do livro - e início do envolvimento do casal - é contado pela Clara, temos uma visão idealizada de Théo, afinal, ela está encantada por ele. Assim, acreditamos que está tudo bem e talvez lá na frente algo dará errado, mas ambos partiram do mesmo ponto. Aí quando chega o capítulo narrado pelo mocinho, o segredo é revelado ao leitor (ponto positivo), mas o romance já está num estágio bem avançado, Théo já está envolvido e nós perdemos sua intenção inicial. É difícil acreditar que um cara tem segredos obscuros e está escondendo propositalmente da mocinha quando ela já nos convenceu que ele foi um fofo no começo e quando chega na parte dele, ele já está transformado, entende? Aí o que sustenta a história é só o que ele esconde dela e o leitor não tem a chance de acompanhar uma rendição do personagem. 

"Sentir saudade é um saco. Mas não é a saudade que está me incomodando, o que tem me atormentado é a dúvida"

Preciso deixar claro: o segredo é realmente forte para segurar a trama, além de não ser banal nem incoerente. Muito bem delineado, com motivo, circunstância e consequência.

O que atrapalhou mesmo minha leitura foi o romance instantâneo. Eu nunca tive problema com isso, porque me apegava fácil (pois é), mas - nesse momento - eu precisava de mais para ser convencida. Eu cheguei a dar uma pausa na leitura de um mês e foi como se esse tempo tivesse passado na história também e consegui aceitar melhor toda aquela paixão arrebatadora e cheia de juras. O meu problema foi só no primeiro terço do livro onde esse romance começa, porque depois os conflitos começam e eu quero sangue! Muito provavelmente eu choraria muito nessa parte.

Os personagens secundários são bem interessantes e a autora dá dicas das histórias pessoais deles e eu preciso saber sobre Ian e Maysa! Com certeza esta introdução aos dois na história já me vendeu muito bem o romance turbulento deles e tem tudo para me ganhar, já que tem um tempo maior de envolvimento, mostrou mais intensidade e Maysa é desbocada e se mostrou bad ass, o tipo de protagonista que venho preferindo.

Não posso deixar de comentar dos inícios dos capítulos que têm quotes lindos que vão de William Shakespeare, passando por Carlos Drummond de Andrade até Tati Bernardi. Maravilhoso, apenas.


A escrita da autora é muto fluída e envolvente, tanto que depois da pausa, li todo o restante do livro no domingo de manhã entre os afazeres domésticos rsrs. Não tem monotonia, os momentos são bem distribuídos e a ambientação é bem visual. Algumas descrições são muito detalhadas e não tão necessárias, mas nada que atrapalhou a leitura. O que me cansou foi a protagonista sempre lendo o olhar do Théo. Ela sempre estava vendo dúvida, dor, angústia etc etc etc no olhar dele, até quando eles nem se conheciam direito. So calm down, sweet.

O romance é bonito, fofo e shippável. Tem tudo que um bom livro do gênero romântico deve ter e indico para quem gosta de leituras que façam suspirar, chorar e suspirar de novo.

Mini-opiniões: Sway - Kat Spears



"Sway é o apelido de Jesse Alderman, por causa de seu talento para conseguir qualquer coisa para qualquer pessoa, como providenciar trabalhos escolares, fazer com que pessoas sejam expulsas da escola, arrumar cerveja para as festas, entre outras coisas, legais ou ilegais... É sabendo dessa fama que Ken Foster, o capitão do time de futebol da escola, pede a ele um trabalho controverso: Ken quer que Bridget Smalley saia com ele. Com seu humor ácido e seu jeito politicamente incorreto de ver a vida, Sway terá que encarar o trabalho mais difícil que já teve: sufocar todos os sentimentos que Bridget desperta nele, a única menina verdadeiramente boa que ele conheceu em toda a sua vida." Sinopse retirada do Skoob.

Sway nas mãos de Colleen Hoover viraria um mar de desgraças, nas mãos de Simone Elkeles viraria um drama de redenção, mas com Kat Spears virou um retrato fiel de um cara ainda no ensino médio, revelando seus pensamentos e rotina, sem a preocupação de ser politicamente correto em seus comentários, sem também incomodar com isso. Sway erra, você acha que ele vai se abrir, voltar atrás nas palavras, de alguma forma reverter uma situação, mas lá esta ele as reafirmando. Jesse - esse é o nome dele - tem um jeito tão natural de ser que não consigo rotulá-lo de badboy ou qualquer outra coisa (ok, talvez ele seja o típico badass), ele é simplesmente daquele jeito e vive a vida fazendo suas coisas (que não aprovo). Tem suas mágoas, suas limitações e sua defesa para não encarar conversas que se voltem para seus sentimentos. Mas nada muito pronunciado e destacado, nada dramatizado. Bridget é uma mocinha certinha, orgulho dos pais, muito responsável, faz trabalho voluntário com crianças especiais, mas não é inocente como as personagens assim costumam ser. Ela também tem um humor ácido, tem uma visão muito clara das coisas e isso me ajudou a gostar dela. Seu irmão é quase mais importante que ela na história e, sério, ele me cativou muito.

Às vezes o que queremos e o que o mundo espera de nós são duas coisas diferentes.

Gostei da atmosfera real que a autora trouxe nas pequenas coisas. O cara que não maltrata a menina, mas também não demonstra afeto; a menina que não insiste, mas se mantém ali para qualquer sinal de aprovação. Não se trata de um romance milagroso, onde o cara mau se "converte" por amor, a mocinha dá uma lição nele e só depois que está tudo perfeito, o aceita. Não, é algo mais real. O cara tem seu jeito, descobre o amor e naturalmente encaixa isso na sua vida. Por outro lado, falta algo que impulsione mais a leitura, que te faça torcer pelos personagens. A experiência de leitura foi boa: é um livro dinâmico, fluido e bom, mas nada tão extraordinário ou intenso como eu esperava pelo tema que trata. O encerramento da história deu um quentinho no coração e foi bem fofo, o que me fez olhar o livro com mais carinho, confesso. Mas, pensando em todos os lados, trata-se de um livro bom, nem extraordinário nem desprezível, sabe? Indico para quem gosta de livros mais leves, aqueles que você coloca entre leituras mais densas.  

As mil noites - E. K. Johnston

"Clássico da literatura universal, as histórias de As mil e uma noites estão no imaginário de todos — do Oriente ao Ocidente. É impossível que alguém nunca tenha ouvido falar sobre Ali Babá e seus quarenta ladrões, ou sobre Aladim e o gênio da lâmpada. Ou sobre Sherazade, a mulher sagaz e inteligente que se casou com um homem cruel, e, por mil e uma noites, driblou a morte narrando contos de amor e ódio, medo e paixão, capazes de dobrar até mesmo um rei. Em As mil noites, a história se repete, mas com algumas diferenças…
Quando Lo-Melkhiin chega àquela aldeia — após ter matado trezentas noivas —, a garota sabe que o rei desejará desposar a menina mais bela: sua irmã. Desesperada para salvar a irmã da morte certa, ela faz de tudo para ser levada para o palácio em seu lugar. A corte de Lo-Melkhiin é um local perigoso e cheio de beleza: intricadas estátuas com olhos assombrados habitam os jardins e fios da mais fina seda são usados para tecer vestidos elegantes. Mas a morte está à espreita, e ela olha para tudo como se fosse a última vez. Porém, uma estranha magia parece fluir entre a garota e o rei, e noite após noite Lo-Melkhiin vai até seu quarto para ouvir suas histórias; e dia após dia, ela continua viva.
Encontrando poder nas histórias que conta todas as noites, suas palavras parecem ganhar vida própria. Coisas pequenas, a princípio: um vestido de seu lar, uma visão de sua irmã. Logo, ela sonha com uma magia muito mais terrível, poderosa o suficiente para salvar um rei..." Sinopse retirada do Skoob.

Com a proposta de uma releitura de As mil e uma noites, As mil noites traz a história de duas irmãs que vivem nas tendas do seu pai no deserto. Com a proximidade da chegada do rei Lo-Melkhiin para escolher sua próxima noiva - ou vítima, já que suas esposas são mortas na noite de núpcias ou poucos dias depois -, a mais nova, ciente do quanto sua irmã chama atenção, pede para a mãe da irmã arrumá-la como arrumaria a própria filha, de forma que ela fosse o destaque e, assim, acabar despertando o interesse do rei e poupando sua irmã da morte. Depois de ser levada, o que mais intriga é que a nova rainha permanece viva, dia após dia, e um estranho poder começa a despertar, e sua irmã pode não ser a única a ser salva. 

Primeira coisa: esqueça o romance romântico. Isso foi a primeira surpresa pra mim, mas muito bem vinda, já que ando me distanciando deste tema. Toda a trama envolve muito mais o amor entre irmãs, o poder dos deuses menores, esperança e mistérios do deserto. Há certo miticismo envolvendo tudo, mas tal qual a protagonista, nosso conhecimento sobre o real poder disso se dá conforme tudo vai acontecendo. A protagonista está sempre contando histórias que vivenciou com sua família, histórias que ouviu pelas tendas sobre o deserto, outras que seu pai trazia quando voltava com sua caravana. A narrativa é absurdamente rica em detalhes visuais e sensitivos. Todas as descrições são vívidas e formam a atmosfera perfeita que faz toda a diferença na experiência de leitura. Há nuances, temperatura, cheiros e texturas, além de toda cultura exposta. 

Eu menti, mas vi a manhã chegar mesmo assim.

Os personagens, em sua maioria, não têm nome. A protagonista é tão "internalizada" com a sua vida que usa as próprias referências para se referir às pessoas. Então há muitos "a mãe da minha irmã", "a mãe da mãe da minha mãe", "a senhora da henna" e por aí vai. Isso, em seu uádi, mostra intimidade, enquanto no qsar mostra a impessoalidade, uma vez que não há interesse em aprofundar os relacionamentos, já que ela pode morrer a qualquer momento. Não dá para se apegar a nenhum especificamente, pois a história se concentra muito mais na protagonista - vai ter girl power no deserto sim senhor! No máximo, desenvolvi uma empatia pela mãe do rei. Além da rainha, alguns (poucos) capítulos são narrador por outra pessoa (?) e isso aumenta o clima misterioso do livro.

O que encaro como ponto negativo é a história não ter um mistério definido e claro para puxar o leitor de volta pra história depois de uma pausa. Quando se está lendo, as páginas voam e tudo é muito envolvente, mas se (conseguir) parar a leitura, não há nada que desespere para retomar. Não é permeado de acontecimentos bombásticos e decisivos, mas, por outro lado, o ritmo da história é confortável, como se a autora te envolvesse numa teia enquanto você lê - sim, a sensação é exatamente essa: que alguém está tecendo a história no leitor. O que faz muito sentido com o enredo. O final é conclusivo e interessante, pois traz o clima de uma história finalizada com lição de moral e nos relembra o poder de uma boa história. 

... mas, ao chegar à milésima primeira, o pesadelo chegou ao fim.

A leitura foi totalmente válida pra mim e indico para todos, mas sem a expectativa de romance, acontecimentos épicos e uma leitura marcante. Em junho li A fúria e a aurora, que tem a mesma proposta, e se você chegou até esse livro por causa do anterior, já deixo claro que são bem distantes. Cada um tem seus artifícios para seduzir (tanto o leitor quanto o rei), mas são distintos na abordagem e desenvolvimento do enredo. Valeu a viagem ao oriente.

Nimona - Noelle Stevenson


"Nimona é uma jovem metamorfa com certa tendência à vilania. Lorde Ballister Coração-Negro é um vilão com sede de vingança. Juntos, eles vão tentar provar para todo o reino que Sir Ouropelvis e seus companheiros da Instituição de Heroísmo & Manutenção da Ordem não são os heróis que todos pensam. Vai haver muitas explosões. E tubarões também. E de singelos planos malignos surgirá uma batalha sem precedentes. Coração-Negro vai perceber que os poderes de Nimona são tão sombrios e misteriosos quanto o passado dela. E o lado imprevisível da comparsa talvez seja mais perigoso do que ele está disposto a admitir."

me perdoe pela qualidade desta imagem e não desiste de mim bjs bjs
Eu lia muito gibi quando criança, mas depois de virar gente grande, não me aventurei mais por histórias neste formato. Eu confesso que cheguei a achar que teria dificuldade em encarar mais de 250 páginas da mesma história em quadrinhos, mas acabei surpreendida. Eu, que nunca havia lido uma graphic novel, me vi devorando Nimona em pouquíssimas horas. Que delícia e surpresa me ver presa na história desta metamorfa doida para colocar em prática suas ideias maléficas.


A história tem momentos muito engraçados (sim, engraçados de verdade, de rir fisicamente, sabe?), momentos fofos, de surpresas e também de angústia. Fiquei com uma dorzinha no coração em algumas passagens, torcendo para as coisas serem revertidas e tudo ficar bem. Nimona tem todo um girl power, deixando claro que ela é muito mais que uma menininha indefesa, que ela pode ser tanto a garotinha abandonada quanto o monstro que destrói tudo. Lorde Ballister, por sua vez, tem seus momentos fraternais, fugindo do rótulo de vilão maléfico e mostrando outro lado que as pessoas não enxergam justamente porque ele precisa ser o vilão mal que precisa ser detido pelo herói, Sir Ouropelvis - mais um personagem que surpreende pela sua dualidade. Aliás, adorei a ideia de desmitificar rótulos e mostrar todos os lados da história.


É incrível como a história é envolvente, de forma que fiquei imersa nas páginas, totalmente dentro daquele reino, como se estivesse em um filme de animação. Como eu falei, esta foi minha primeira experiência com uma graphic novel e agora já quero procurar outras, porque a experiência foi absolutamente positiva. Apesar do final conclusivo, não deixo de desejar outras histórias com toda a irreverência dos personagens determinados a desmascarar instituições, solucionar mistérios, bolar teorias e planos ultrassecretos.

Eu sou totalmente leiga para avaliar traços, cores e tudo que envolve as ilustrações, mas fica aqui meu total contentamento com a obra. Posso dizer que é tudo lindo e vívido, a edição está linda e vale cada minutinho de leitura.

Pax - Sara Pennypacker

Peter, o menino, e Pax, a raposa, são melhores amigos. Resgatado na estrada ainda bebê, Pax só conhece o mundo em que vive - a casa do menino. Peter perdeu a mãe precocemente e vive com seu pai, que não é lá dos mais afetuosos, criando no garoto uma vontade de jamais ser como ele. Menino e raposa se conhecem como ninguém, tem seus próprios códigos e uma comunicação silenciosa. São realmente inseparáveis. Até que, pela guerra iminente, Peter é obrigado pelo seu pai a abandonar Pax numa estrada bem longe da sua casa. Seu pai teria que servir na guerra, enquanto ele teria que morar com o avô que jamais aceitaria o animal em casa.  

Não suportando a dor de ficar longe de Pax e tomado pela culpa por ter traído seu companheiro, Peter decide que vai buscar sua raposa. Sozinho, com alguns objetos na mochila, Peter começa sua caminhada de dias. Ele não sabe exatamente onde seu pai parou o carro aquele dia, mas tem uma ideia e vendo o lugar, certamente reconhecerá. Pax, do outro lado, se vê sozinho num imenso mundo selvagem que ele não fazia ideia existir. Com a certeza que seu menino logo voltará lá para buscá-lo, ele tenta se manter próximo àquele local, mas precisará descobrir como sobreviver com tanta liberdade.

"- Afinal, você quer voltar oara a sua casa ou para o seu bichinho?
- Dá no mesmo. - A resposta saiu espontânea e firme, o que me surpreendeu." 

Se uma história narrada pelo inocente olhar de uma criança já é tocante, imagine adicionar o ponto de vista de um fiel animal de estimação? Este livro carrega tanto aprendizado e é contado com tanta delicadeza que foi impossível ficar indiferente à história. Pax é atemporal e indicado para todas as idades, suas lições são aplicáveis a qualquer fase da vida. Sara Pennypacker fala sobre se encontrar, se descobrir, sobre sonhos, recomeços e perdão. Fala também sobre a natureza humana e o quanto o homem pode se transformar - seja para o bem, seja para o mal.

O primeiro capítulo é de cortar o coração e cheguei a derramar algumas lágrimas, assim como na última página. O final é curto, mas entendo que a lição da história está em seu desenvolvimento, como Oz, onde a mágica está no caminho e não na chegada. O desfecho foi como pensei, apesar de, de uma forma egoísta, desejar outro, mas sei que a escolha da autora foi a mais coerente. Não dá pra falar desse livro sem citar essa edição com capa dura, rica em detalhes e com as ilustrações originais, né? Só deixou o livro ainda mais especial. 

"- E se eu me perder?
- Você não vai se perder.
- De repente eu já estou perdido."

Pax é o tipo de livro que não conseguimos definir muito bem, mas fazemos questão de ter na estante e indicar. A história dá um calorzinho no coração e nos deixa encantados, como uma fábula infantil. Desejo que você leia este livro em algum momento da sua vida, separe um tempo para aproveitar tudo que esta leitura tem a oferecer. Não consigo nem desenvolver mais a resenha, porque seria redundante - só sei dizer o quanto este livro é fofo, tocante, especial. Se você gostou de O Pequeno Príncipe, Extraordinário, Passarinha, Tormento, A Jornada pode colocar Pax à sua lista de leituras. Confie em mim.

Jogos Macabros - R. L. Stine

Vocês podem observar que tenho levado a vontade de ler "livros que dão medinho" a sério, né? Essa foi mais uma tentativa, mas que, infelizmente, não correspondeu às expectativas. 

A Família Fear é cercada de mistérios e todos em Shadyside conhecem diversas histórias envolvendo o clã. Brendan Fear parece diferente: o gênio da escola, vive jogando World Warcraft com seus amigos e também cria seus próprios jogos. Do outro lado está Rachel Martin, uma adolescente certinha que estuda de manhã e trabalha de garçonete à tarde. Ela nutre uma paixão platônica por Brendan e ele parece finalmente notá-la: inesperadamente, a convida para sua festa de aniversário no casarão de veraneio da família, que fica na isolada Ilha do Medo. Apesar dos avisos da melhor amiga e do ex-namorado, Rachel está decidida a comparecer à festa, mas nem imagina que tipo de jogo planejaram para tornar o evento inesquecível. 

A premissa do livro é bem instigante e toda a condução até a fatídica desta mantém o ritmo de mistério e expectativa. Toda a construção do ambiente é feita na primeira e segunda parte, mas aí quando a festa finalmente chega, o nível simplesmente despenca. O autor abusa dos clichês e esterótipos para conduzir seu enredo e a sensação foi de assistir aqueles filmes de terror adolescente bem besteirol. A mocinha, que é a narradora, tem atitudes muito estúpidas e é impossível não se irritar com ela. Sabe aquela personagem que faz questão de escolher a opção mais idiota e óbvia na hora do medo? O grupo está em uma ilha isolada, sem celular, pessoas a quem pedir ajuda, sem barco e com um assassino à espreita. Eles, claro, decidem não se separar. Mas no primeiro susto, lá está Rachel correndo SOZINHA para dentro da casa, entrando em um quarto que - assim como os demais cômodos - está sem luz. Se a casa é mal-assombrada, por que alguém se esconderia lá dentro?

"De repente, eu me senti uma completa idiota.Talvez tudo fosse um jogo com Brendan. Quando ele me convidou para a festa... quando me escolheu para ser sua parceira na caçada aos objetos... quando me abraçou e beijou... Tudo um jogo? Tudo uma piada para ele?"

Aí me senti subestimada pelo autor. Sei da ampla experiência dele, e sei também que ele não escrevia sobre a série há vinte anos... e nesse tempo, muita coisa mudou, o leitor mudou, certo? Mas a impressão é que o autor parou no tempo e construiu seu "novo" livro nos "velhos" moldes. É notável que ele tem técnica: os personagens são apresentados na ordem certa, os capítulos terminam de forma motivadora para o leitor continuar lendo, as descrições são bem feitas deixando tudo muito visual, as pontas são bem amarradas, entre outras coisas, mas vi muita técnica e pouca sensibilidade.

O desenrolar é muito improvável mesmo dentro daquele cenário, os personagens são rasos, então não consegui criar empatia e me sensibilizar com os acontecimentos. Além disso, o autor fica sempre contando algo e, em seguida, volta atrás. No início, isso dá um alívio, mas depois tira a emoção, porque os fatos vão perdendo a credibilidade. Isso sem contar na tentativa de romance num momento totalmente inoportuno, improvável e incoerente. Desta vez, não culpo o momento, o público-alvo nem a tradução: R. L. Stine realmente errou a mão em Jogos Macabros.

Não acompanhei a série mais famosa do autor - Goosebumps -, mas assisti ao filme com meu filho e a atmosfera é a mesma: uma tentativa de terror/suspense, mas sem o compromisso de colocar medo, ficando quase cômico. Apesar de tudo isso, se tiver oportunidade, lerei outras obras do autor, porque acredito que ele faça melhor que isso, considerando o sucesso que faz, mesmo agora, 20 anos depois (a título de curiosidade: este seria o volume 52 da série). 

P.S. Ele também é autor de É o primeiro dia de aula... sempre! e tem resenha aqui no blog. 

Mini-opiniões: O Adulto - Gillian Flynn

Uma jovem ganha a vida praticando pequenas fraudes. Seu principal talento é a capacidade de dizer às pessoas exatamente o que elas querem ouvir, e sua mais recente ocupação consiste em se passar por vidente, oferecendo o serviço de leitura de aura para donas de casa ricas e tristes.
Certo dia, ela atende Susan Burkes, que se mudou há pouco tempo para a cidade com o marido, o filho pequeno e o enteado adolescente. Experiente observadora do comportamento humano, a falsa sensitiva logo enxerga em Susan uma mulher desesperada por injetar um pouco de emoção em sua vida monótona e planeja tirar vantagem da situação.
No entanto, quando visita a impressionante mansão dos Burke, que Susan acredita ser a causa de seus problemas, e se depara com acontecimentos aterrorizantes, a jovem se convence de que há algo tenebroso à espreita. Agora, ela precisa descobrir onde o mal se esconde, e como escapar dele. Se é que há alguma chance.
Minha leitura de Lugares Escuros não rendeu como eu esperava, mas ainda quero retomá-la, era só questão de momento mesmo. Com o lançamento deste conto, aproveitei para ter outra experiência - desta vez mais rápida - com a autora Gillian Flynn. Aqui, lendo a obra completa, pude ver como esta mulher realmente tem o dom para brincar com o psicológico do leitor e nos levar a caminhos inimagináveis. Sua protagonista aqui não é uma mocinha em perigo, mas alguém genuinamente trapaceiro, com facilidade para manipular e altamente gananciosa. Pela minha pequena experiência com a autora, uma típica protagonista dela, né?

É incrível como em pouquíssimas páginas ela consegue construir um ambiente verossímil, visual e sensível. Chegou a dar certo medinho e me trouxe a sensação de quando assisti O grito. O final foi à altura - inesperado e a mulher me fez de trouxa, óbvio. Gillian, isso é um jogo comigo, garota? A maioria dos contos que leio termina de forma aberta e isso pode ser ótimo por nos dar liberdade para imaginar o futuro a partir daquele ponto, mas pode ser péssimo justamente por tal liberdade. Qual a verdade, afinal? A curiosidade corrói e terminei O adulto com enormes pontos de interrogação, surpresa pelos acontecimentos e tentando digerir melhor a história. É inegável que a autora tem o dom para mexer com o psicológico do leitor.

Gostei? Não sei, mas esse conto foi uma pequena amostra do que me aguarda nos outros livros da autora e me deu mais ânimo ainda. Simplesmente não dá pra ignorar o talento da autora. Não se espante se no futuro eu fizer parte de algum fã-clube da autora, ok? Este conto foi escrito para uma antologia organizada por George R. R. Martin (O Príncipe de Westeros e outras Histórias).

Dias Perfeitos - Raphael Montes

Ainda da série "em busca de livros que dão medinho", peguei Dias Perfeitos, livro que tenho há dois anos na minha estante, já tinha ouvido muito sobre, mas ainda teimava em deixá-lo sem ler. Num impulso, decidi lê-lo e daí foi difícil largar (veja bem, eu terminei dentro da Bienal).

Téo é um jovem introvertido, estudante de medicina e sua melhor amiga é Gertrudes, uma senhora presente nas aulas de anatomia - estar morta e ser apenas um corpo para estudo não é um problema para ele. Ele mora com a mãe em um apartamento no Rio e essas são as pessoas com quem se relaciona diariamente. Durante um churrasco onde foi acompanhar a mãe, ele conhece a extrovertida Clarice, a moça de humanas. Um pequeno diálogo e, pronto, Téo está apaixonado por ela e precisa encontrá-la novamente. Inicia-se assim, o momento stalker da vida real e diante das negativas de Clarice, ele é obrigado a sequestrá-la. Mas tudo em nome do amor. Ele é um bom cara para ela, só precisa de espaço para mostrar e a convivência é ideal para que ela o conheça e sentimento se torne recíproco. Pelo menos é assim que ele pensa.

Eu li o livro um pouco atrasada, depois de ver inúmeras pessoas impressionadas com a grandiosidade da obra, amigos meus falando que o cara é genial entre outros elogios. O que isso faz com a expectativa? Explode. E, no meu caso, me fez ler com a razão aflorada, atenta para todos os passos e escolhas do autor. Exatamente pelo senso crítico no nível máximo, terminei a leitura ponderando muitos aspectos que me deixaram em dúvida se amei ou se me decepcionei. Um desenvolvimento tão preciso e cruel me fizeram esperar um final à altura, com todas as pontas amarradas em um nó imbatível. Acontece que o final foi surpreendente e talvez isso confunda na hora de avaliar. Ok, foi imprevisível, mas foi satisfatório, foi realmente bom ou o brilho da surpresa cegou? O livro tem inúmeros pontos positivos, mas sabe quando falta o gran finale para o veredito de que o autor é realmente genial? Vou tentar expressar de forma separada, fingindo que ainda não terminei e estou absolutamente impressionada com as atrocidades de Téo.

"Lentamente, Clarice se abria para ele, gostava dele. Era natural: ela não tinha mais ninguém. Ele a alimentava, dava carinho e atenção. O mínimo que podia esperar em troca era aquele afeto sutil, que logo ganharia vigor - ele tinha certeza. No fim das contas, mesmo mulheres feministas e alternativas se rendem a um homem de verdade."

A naturalidade com que é narrado todo o desenrolar da trama é perturbadora. A obra é contada em terceira pessoa e o narrador é totalmente impessoal, sem deixar transparecer o mínimo de julgamento para as atitudes e pensamentos do protagonista, portanto cabe ao leitor formar o pensamento e perceber o quanto aquilo é doentio. A frieza de Téo me assustava e, para piorar ainda mais a situação, ele pensa estar certo, sem a consciência da própria crueldade. Controverso a tudo isso, há certos escrúpulos presentes em sua personalidade e é interessante como até isso é usado para que ele não pareça uma pessoa má como um psicopata pré-disposto a crueldades em série. Ele só fez aquilo por Clarice, mas a respeita (dentro da cabeça dele) e tudo é em prol de um bem maior. O machismo é intrínseco à sua personalidade, como um princípio, uma tradição e leves pinceladas numa cena ou outra nos mostra mais esta faceta do personagem. Tudo isso me enjoou de uma forma que não sei mensurar, mas nada, absolutamente nada me preparou para o que eu presenciaria capítulo 24, onde foi o ápice da minha repulsa e eu parei de ler, totalmente tentada a abandonar o livro. 

É muito claro: o livro é ótimo, tem técnica, afeta as emoções do leitor, mexe com os sentidos, mas os acontecimentos são péssimos, a história é pesada ao mesmo tempo que fascinante, porque é impossível parar e ficar alheio aos eventos descritos. Tudo vai se encaixando e piorando e a falta de discernimento do protagonista é aterrorizante. Não dá para pensar num desfecho suficiente - suficientemente punitivo, suficientemente vingativo, suficientemente corretivo. Mas eu esperava ao menos um final atado, que unisse todas as coisas a que somos apresentados durante a narrativa. Sem contar que ainda achei corrido. Olha só, eu até acho que o livro poderia ter aquele final, mas desde que antes, houvesse um desfecho digno para algumas coisas à altura de todo o desenvolvimento. 

Raphael Montes já entrou para minha lista de autores que vou sempre ler, quero encontrar com ele ainda em O Vilarejo e Suicidas, e indico que entre nas suas leituras também. O final deste livro é altamente discutível, é até corajoso da parte dele, mas achei uma saída fácil diante da grandiosidade de toda a trama. Uma única coisa foi incoerente pra mim e tamanha conveniência me pareceu deslize do autor (a chave das algemas, milagrosamente, ao alcance do refém torturado e a possibilidade ainda de conseguir pegá-la e abrir as algemas - foi difícil visualizar essa cena na minha cabeça, ela parecia inverossímil diante do cenário). Enfim, apenas uma observação diante do todo + a decepção com o encarramento. Há muitos detalhes que enchem a trama e a deixam possível, como a forma que se desenrola o cárcere fantasiado de road-trip, mas prefiro não comentar para não estragar para quem ainda não leu a forma como as coisas se encaixam. Assim como a personalidade de Clarice e suas reações. 

Aqueles que conseguirem encarar a leitura, com certeza ficarão impressionados com o talento inegável do autor e ficarão marcados pela história, assim como eu fiquei. Amando ou odiando, é impossível ser indiferente a Dias Perfeitos.

P.S. Aqui no blog tem outra resenha de Dias Perfeitos, escrita pela Pamela. Clique aqui para ler.