A geografia de nós dois - Jennifer E. Smith

"Lucy mora no vigésimo quarto andar. Owen, no subsolo... E é a meio caminho que ambos se encontram - presos em um elevador, entre dois pisos de um prédio de luxo em Nova York. A cidade está às escuras graças a um blecaute. E entre sorvetes derretidos, caos no trânsito, estrelas e confissões, eles descobrem muitas coisas em comum. Mas logo a geografia os separa. E somos convidados a refletir... Onde mora o amor? E pode esse sentimento resistir à distância? Em A Geografia de Nós Dois, Jennifer E. Smith cria tramas cheias de experiências, filosofia e verdade." Sinopse retirada do Skoob.

Jennifer E. Smith ficou conhecida com seu romance fofinho, de nome enorme e para ler em um dia A probabilidade estatística do amor à primeira vista. Logo depois, veio Ser feliz é assim, um romance um pouco mais elaborado e extenso. Já li os dois e gostei, então quando vi A geografia de nós dois, a mão chega tremeu para comprar, mas consegui segurar um pouquinho até que eu realmente pudesse lê-lo. Aí eu acabei encontrando basicamente a mesma coisa do primeiro livro, tirando o nome enorme.

É quase impossível não fazer uma comparação com o A probabilidade..., já que eles possuem uma estrutura de enredo muito parecida - dois adolescentes de conhecem numa situação inusitada, sem os pais, ambos vêm enfrentando problemas/mudanças familiares, cada um tem um destino e uma situação a encarar, e, ao invés do tempo limitado, temos o espaço amplo demais (ou seja, trocam-se horas por quilômetros). Não conseguiria escolher o favorito dentre os dois, acho que quem gostou muito de um, vai adorar o outro, assim como aconteceu comigo, mas em menor escala. Acho os livros bons, bonitinhos, para passar o tempo, mas só.

Mas não existe começo que seja totalmente novo. Toda novidade chega no encalço de algo velho, e todo início vem à custa de um fim.

Apesar do romance iminente, a autora aborda certos dramas familiares, coisas que os personagens estão vivendo e são determinantes para seu futuro. Os pais de Lucy são muito ausentes e ela não faz uma queixa clara disso, mas gera incômodo no leitor - veja bem, eles estão em outro continente enquanto a filha de 16 anos está sozinha em Nova York. Seria um sonho adolescente? Talvez, mas não para Lucy, uma garota que gosta das coisas simples e não é de rebeldia. Ela também tem irmãos gêmeos que, apesar de serem muito importantes para ela, não estão presentes, pois foram fazer faculdade em outro estado. Ou seja, a garota está abandonada, mas finge costume, sabe? Já Owen está sofrendo duplamente: a morte da mãe e o luto do seu pai. Consigo imaginar uma imagem muito clara do Patrick, pai dele, e foi o que me deixou mais triste na história. Ele está perdido sem a mulher, mas ainda tem o filho adolescente que não deveria ser afetado pela sua falta de rumo, mas, inevitavelmente, é. 

Adorei a forma realista que Jennifer conduziu o romance, não houve uma idealização dos protagonistas, nem da situação vivida por eles. Há uma sincronia mesmo quando eles se encontram beeeeem distantes, há certos códigos cheios de significados - uma frase, um objeto. O livro é todo narrado em terceira pessoa, mas há uma alternância de foco, ora em Lucy, ora em Owen. Isso ampliou a visão do leitor, que pode conferir os rumos que cada um toma quando separados. Se você é de ficar marcando quotes, pode separar as tags que tem umas coisas bem lindinhas.  

Às vezes tinha a impressão de que sua vida inteira era um exercício de espera; não exatamente para ir embora, mas para ir, simples assim. Sentia-se um daqueles peixes que tinham o potencial de crescer de maneira inimaginável, bastava o tanque ser grande o bastante. Mas seu tanque sempre fora pequeno demais e, por mais que amasse sua casa - por mais que amasse a família -, sempre se sentira batendo a cabeça nos limites da própria vida.

Enfim, o livro não é surpreendente nem profundo, com certeza eu gostaria de ler a mesma história com um final mais preciso, um drama mais trabalhado e resolvido, entre outras coisas, mas tudo é na medida para as poucas páginas e para o público jovem. Uma leitura despretensiosa, mas fofa, para intercalar com leituras mais densas.   

Temporada de acidentes - Moïra Fowley-Doyle

"Guardem as facas, protejam as quinas dos móveis, não mexam com fogo.
A temporada de acidentes vai começar.
Acontece todo ano, na mesma época. Todo mês de outubro, inexplicavelmente, Cara e sua família se tornam vulneráveis a acidentes. Algumas vezes, são apenas cortes e arranhões. Em outras, acontecem coisas horríveis, como quando o pai e o tio dela morreram. A temporada de acidentes é um medo e uma obsessão. Faz parte da vida de Cara desde que ela se entende por gente. E esta promete ser uma das piores.
No meio de tudo, ainda há segredos de família e verdades dolorosas, que Cara está prestes a descobrir. Neste outubro, ela vai se apaixonar perdidamente e mergulhar fundo na origem sombria da temporada de acidentes. Por que, afinal, sua família foi amaldiçoada? E por que não conseguem se livrar desse mal?
Uma narrativa sombria, melancólica e intensa sobre uma família que precisa lidar com seus segredos e medos antes que eles a destruam." Sinopse retirada do Skoob.

Tenho uma tendência muito grande a escolher livros com temáticas românticas e, querendo mudar um pouco, decidi buscar livros "que dão medinho" e Temporada de Acidentes entrou rapidinho na lista. A premissa bastante simples me chamou atenção - uma família enfrenta uma temporada de acidentes todos os anos. Neste período, eles estão mais propensos à batidas, cortes, quedas e até morte, veja bem. Qual a explicação para isso? Apesar da premissa parecer simples como descrevi, paralelamente à temporada, outros acontecimentos vão dando fôlego extra para o livro e o mistério envolvendo uma antiga amiga da protagonista Cara acaba ganhando maior destaque.

O núcleo do livro é formado por um grupo de adolescentes: Cara, a protagonista, sua irmã Alice, seu irmão postiço Sam e a melhor amiga, Bea. Cara tem uma visão diferente das coisas, as enxerga com certa fantasia, mas ela só tem isso e não vi uma explicação ou utilidade para tal característica, e isso é uma das coisas que achei desnecessário adicionar em um livro tão pequeno (250 páginas) se não havia espaço para desenvolver, diferente da excêntrica Bea, que tem o misticismo "incorporado" à sua personalidade de forma que acrescentou à formação da personagem, deu um toque diferente, mas natural. Alice é a mais velha e parece fazer o tipo "não tenho paciência para quem tá começando", mas tem seus motivos para isso e é levemente enigmática. Já Sam parece um garoto normal, mas também carrega seus próprios traumas.

"Todos nós nos tornamos especialistas em esconder as coisas dos outros. Todos nós nos tornamos especialistas demais em esconder segredos dos amigos."

Apesar do livro conter vários elementos para compor uma boa trama, achei que faltou liga entre tais coisas. Como a autora optou por trazer mais de uma "revelação" para o final, achei que não ficou bem dividido e fatos importantes e fortes tiveram que dividir o mesmo momento - o que diminuiu o impacto deles. Foi tudo assim de uma vez e eu fiquei meio perdida, sem saber no que prestar mais atenção. Até agora não consegui avaliar muito bem o livro, não tive motivos para amar, mas também não achei nada que o tornasse ruim. Ele foi indiferente, sei que muitas pessoas podem gostar, mas outras podem ter a mesma sensação que eu. Acredito que, se a autora abrisse mão de alguns assuntos que não tem grande relevância e estão ali só para enfeitar o enredo, sobraria mais espaço para desenvolver os mistérios dos personagens secundários e, assim tornaria o livro mais atrativo e empolgante. O clima, ambiente, os personagens e a atmosfera do livro no geral me remeteram a Mentirosos, outro livro que também fiquei sem saber se foi bom ou não. Só para deixar claro se você já leu: não tem nada a ver com o gran finale de Mentirosos, apenas essas coisas que falei, ok? Então se você gostou, acredito que Temporada de Acidentes também te agrade.

"Acho que minha família toda é assim: evitamos falar das coisas sobre as quais não podemos falar e cobrimos cada superfície para nos proteger do momento inevitável em que tudo virá à tona."

Uma coisa que "estraga" minhas leituras desse tipo é sempre a expectativa. Acontece que: um dia, li A lista do nunca e foi uma leitura muito intensa, alucinante e tensa, e sempre pego um livro do mesmo estilo esperando ter a mesma reação - ou algo próximo. Eu quero conspirar, desconfiar, caçar pistas, ficar com medo de ir à cozinha, essas coisas, mas infelizmente, essa sensação não me acompanhou nesta leitura. E ainda sigo na busca.

Mini-opiniões: P.S. Ainda amo você - Jenny Han


Se eu já tinha gostado de Para todos os garotos que já amei, com este aqui não foi diferente. Eu poderia escrever uma resenha completa sobre ele? Sim, mas ficaria repetitivo, pois as mesmas características que notei no primeiro livro, também estão presentes aqui, só muda o desenvolvimento do enredo. Isso levanta um questionamento: era realmente necessário escrever um segundo livro? Sinceramente, não. Apesar de adorar prolongar meu tempo na cabeça de Lara Jean, era totalmente possível sintetizar os dois livros em um, porque ler essa segunda parte só me fez ficar em agonia com medo da autora desfazer o final anterior, o que me fez ir atrás de spoilers para conseguir ler em paz. Se eu consegui, já não posso falar. 

A autora conseguiu manter o tom de fofurice, os relacionamentos familiares e dramas adolescentes na medida certa, e, com essa fórmula clichê, traz de volta aquela leitura confortável que não sabemos explicar muito bem o por quê, mas que encanta. Muitos YAs querem ser surpreendentes, diferentões e aqui temos uma trama simples, sem grandes plot twists ou sem um turning point e é sucesso entre os leitores - parece que o jogo virou, não é mesmo? Continuo indicando a leitura. Vai sair o terceiro livro e lá estarei eu, de novo, morrendo de ansiedade e de medo, mas estarei com ele firme nas mãos.

Tenho uma curiosidade imensa sobre o Peter. Juro que não iria reclamar de ler um livro sob o ponto de vista dele. Margot é outra pessoa misteriosa pra mim. Queria um livro da Kitty também, do Josh. Até da Genevieve. Poxa, todos os personagens! Já quero o romance do pai das irmãs Song, inclusive.

Indico muito a leitura da resenha de Para todos os garotos que já amei, ok? Ok.

O amor nos tempos do ouro - Marina Carvalho


"Sabes que nunca me apaixonei, maman, mas se porventura o tivesse feito, seria por alguém como ele?"
Cécile Lavigne perdeu todos os que amava e agora está sozinha no mundo. Ela, uma franco-portuguesa que ainda não completou vinte anos, está sendo trazida ao Brasil pelo único parente que lhe restou, o ambicioso tio Euzébio, para casar-se com o mais poderoso dono de terras de Minas Gerais, homem por quem Cécile sente profundo desprezo. Após desembarcar no Rio de Janeiro, Cécile ainda precisará fazer mais uma difícil viagem. O trajeto até Minas Gerais lhe reserva provações e surpresas que ela jamais imaginaria. O explorador Fernão, contratado por seu futuro marido para guiá-la na jornada, despertará nela sentimentos contraditórios de repulsa e de desejo. Antes de enfim consolidar o temido casamento, Cécile descobrirá todos os encantos e perigos que existem nessa nova terra, assim como os que habitam o coração de todos nós. Com o passar dos dias, crescerá dentro dela a coragem para confrontar todas as imposições da sociedade e também o seu próprio destino. Sinopse retirada do Skoob.

Marina Carvalho já é um nome conhecido na blogosfera desde o lançamento de Simplesmente Ana pela Novo Conceito. O livro fez sucesso por todo o conjunto: capa linda, ações de marketing, enredo chamativo e uma escrita fluída fácil de acompanhar. Foi o primeiro livro da Marina que li e, no geral, achei o livro bom, pendendo para o regular. Deixe-me explicar: à primeira vista, numa leitura despretensiosa, a história era ok, mas parando para pensar no assunto, eram inúmeras as falhas e pontos a melhorar. Em seguida, veio Azul da cor do mar, que ainda não li; depois De repente Ana, o que conseguiu ser regular e, logo após, Elena, livro que acabei abandonando (temporariamente) por volta da página 100. Entre essas leituras teve também Ela é uma fera. Marina Carvalho era um nome riscado da minha lista de autores para acompanhar. Até chegar O amor nos tempos do ouro em casa. Bastou ler a primeira página para entrar numa leitura frenética ao mesmo tempo em que dosada, para saborear por mais tempo e ler com mais atenção aquela história deslumbrante. Surpresa e encantamento definem esta leitura.


Quando falo que o livro é ótimo, não é só em comparação às demais obras da autora. Ele se destaca entre elas, sim, mas se destaca dentre todas as minhas últimas leituras. Além de ter ganhado meu coração, a obra é de qualidade inquestionável - é visível o cuidado da autora em retratar com fidelidade e certa licença poética o clima e meio sociais da época. Acredito que a experiência da autora como professora a tenha ajudado muito na hora de inserir informações históricas de forma didática e totalmente incorporada na trama. Além disso, a construção do romance também chama bastante a atenção, me deixando até dividida na hora de escolher meu ponto favorito. Foi uma mistura muito harmoniosa: o enredo é interessante, o desenvolvimento é absolutamente fascinante, a ambientação verossímil e rica. Sem dúvidas, o livro virou favorito.

Cécile é uma protagonista forte e determinada, de uma sensibilidade ímpar e um senso de humanidade raro na época - a forma como ela enxerga os escravos vai totalmente contra o que muitos  (infelizmente) praticavam e pregavam. É doloroso ler certas partes onde são descritas as atrocidades que eles sofriam, assim como a submissão imposta às mulheres (e aí você vê o quanto o feminismo foi e é importante: de onde saímos, onde estamos, para onde temos que ir). Fernão não é bem um mocinho, mas é um personagem representado de forma bem humana: com defeitos e qualidades, com passado e um jeito que conquista. Uma personagem me chamou atenção e, no finalzinho da história, vi que tinha uma nova história em potencial ali - e está confirmado! Mal posso esperar, sério. 

A narrativa é, na maior parte do tempo, em terceira pessoa, mas, eventualmente, surgem páginas do diário da Cécile e cartas de Fernão. No início de cada capítulo, há trechos de outras obras históricas., o que me rendeu algumas marcações a mais. Minha única crítica ao livro, é sobre as notas. Alguns termos usados precisam de certas explicações, mas elas são numeradas e listadas ao final da obra. É cansativo parar a leitura para ver o significado lá no final e então depois voltar. Notas no rodapé funcionariam melhor (confesso que, se eu não estivesse tão envolvida, passaria direto por estas observações, perdendo "parte" da leitura, mas li cada nota, então imaginem).

Ler O amor nos tempos do ouro foi como fazer uma viagem no tempo, quase ter uma aula de história em campo, ser arrebatada por um romance apaixonante e ainda ser surpreendida com a elegante escrita da autora.

Vivian contra o apocalipse - Katie Coyle

"Vivian Apple tem 17 anos e mal pode esperar pelo fatídico “Arrebatamento” — ou melhor, mal pode esperar para que ele não aconteça. Seus devotos pais foram escravizados pela Igreja faz tempo demais, e ela está ansiosa para que voltem ao normal. O problema é que, quando Vivian chega em casa no dia seguinte ao suposto Arrebatamento, seus pais sumiram e tudo o que restou foram dois buracos no teto…
Vivian está determinada a seguir vivendo normalmente, mas quando começa a suspeitar que seus pais ainda podem estar vivos, ela percebe que precisa descobrir a verdade. Junto com Harp, sua melhor amiga, Peter, um garoto misterioso que tem os olhos mais azuis do mundo e informações sobre o verdadeiro paradeiros dos seguidores da Igreja (ou é o que ele diz), e Edie, uma Crente que foi “deixada para trás”, os quatro embarcam em uma road trip pelos Estados Unidos. Mas, depois de atravessar quilômetros de eventos climáticos bizarros, gangues de Crentes vingativos e um estranho grupo de adolescentes auto-intitulados os “Novos Órfãos”, Viv logo vai perceber que o Arrebatamento foi só o começo." Sinopse retirada do Skoob

Quem me acompanha no snap (ceilem) ou no twitter (@EsteJaLi), me viu falando bastante deste livro. Eu não sabia muito bem o que esperar, mas o que encontrei me pegou totalmente desprevenida e acabei adorando! Pelo que andei lendo, livros sobre arrebatamento não são tão novidades assim, mas esta foi minha primeira leitura com o tema e adorei o enredo.

Vivian contra o apocalipse é narrado em primeira pessoa e, diferente do que acontece em muitos YAs, é possível terminar o livro sem estar de saco cheio da mocinha. Vivian muda muito durante a história e realmente vira sua própria heroína, como ela mesma pediu ao Universo. Apesar de um maketing focado na protagonista badass, já vi melhores (ou piores?), mas ela não deixa a desejar - é bem coerente com a história, se fosse um pouco mais, seria forçado. Eu achei que Harp iria se sobressair na trama, porque ela era a garota do f*da-se, mas a história era mesmo da Vivian, então sua melhor amiga é uma parceira e tanto e ambas se completam, porém em nenhum momento divide o protagonismo. Já Peter é um mocinho fofinho, mas tenho certo receio de confiar nele, então vamos dizer que ele ainda é um mistério.

Durante toda a leitura, fiquei imaginando como todo este enredo pré-apocalíptico está perto da nossa realidade, como o fanatismo pode transformar qualquer coisa de forma radical demais - começando como um textão no facebook e logo virando discurso para uma multidão. As pessoas têm a necessidade de acreditar em alguma coisa e em tempos de crise, isso se torna ainda mais gritante. Aí junta a intolerância, desgoverno e ignorância e puft!, temos o cenário perfeito para surtos e cultos coletivos.

Gostei de como a autora deixou claro que tudo aquilo contido no Livro de Frick é uma visão distorcida e manipulada de uma crença humana, não tratando aquilo como verdade celestial, por assim dizer. Além disso, sua narrativa é bem fluída e instigante, dá sempre vontade de ler mais um pouco e não cansa. O final foi totalmente imprevisível, mas isso não quer dizer que foi um tapa na cara, eu só não esperava mesmo. Aliás, este livro tem muitas coisas imprevisíveis. 

Vale lembrar que o livro é Young Adult, então ele não tem aquela profundidade cabida para os temas abordados, mas com certeza é na medida para os jovens leitores e vai trazer reflexões. Sério, fico imaginando um professor de história discutindo com seus alunos do primeiro ano durante a aula... Então, digamos que o livro não é excelente, mas abre muitas possibilidades para discussões e para relacionar com nossa atual situação onde Bolsonaro é chamado de mito e Malafaia/Feliciano são ovacionados. Vivian contra o apocalipse é uma duologia e Vivian contra a América já foi lançado aqui (e é minha atual leitura).   

Auggie & Eu - R.J. Palacio

Li Extraordinário no comecinho de 2013 e me encantei de forma absurda pelo livro. Me trouxe muitas reflexões e fiz até playlist inspirada nele. Passados três anos, estou de volta à escola Beech Perp e lendo novos pontos de vista do "fenômeno Auggie".

O livro conta com três histórias que, originalmente, foram lançadas em e-books individuais (veja O capítulo de Julian, Plutão e Shingaling na Amazon). No início, tive um pouco de dificuldade para lembrar quem eram os personagens na história de Auggie, afinal, foram três anos entre uma leitura e outra e um apego enorme ao protagonista, o que deixou "os outros" sem a devida atenção. Diferente do que eu esperava, Auggie quase não está presente fisicamente nestas histórias, mas tudo se desenrola a partir da chegada dele na escola. 

O capítulo de Julian acabou me fisgando muito mais, apesar de toda repulsa que me causou. Julian é quem lidera o "motim do bullying" contra August e, assim, se tornou o vilão da história, mas estamos falando de crianças/pré-adolescentes, então será que ele é o culpado por tudo? Não digo que este conto foi uma redenção, pois seu comportamento ainda é inadmissível, mas trouxe outra perspectiva do personagem e do meio que ele vive. Cheguei a parar a leitura em alguns momentos porque eu estava enjoada com o comportamento dos pais do Julian - e surgia um certo medo dele gravar permanentemente tais pensamentos em sua personalidade. Bom lembrar que trata-se de uma história infanto-juvenil (apesar de ser indicada para todas as idades), então existe uma mudança, o enxergar do erro e, dentro daquela realidade, a correção - trazendo esperança para os possíveis pequenos leitores. Sério, gente, o que é tratado aqui precisa ser discutido em sala (seja de aula ou de jantar).

Plutão é basicamente uma história de amizade. Não a amizade de declarações fofinhas e selfies nas redes sociais, mas aquela que nasce na infância, com toda convivência e rotina, com amadurecimento e mudanças. Quem narra é o melhor amigo de Auggie, Christopher. Ele é quem conta como foi crescer tendo um amigo que sempre foi prioridade para todos, até para sua mãe, devido à saúde delicada. À medida que eles vão crescendo, vão aprendendo que não é fácil manter uma amizade, mas que valem certas renúncias.

Em Shingaling, Charlotte vai contar um pouquinho mais da dinâmica da turma da escola. Preciso dizer que vi a Ceile quase adolescente em cada página deste conto! Vivi coisas muito parecidas quando tinha a idade das meninas, desde a divisão dos grupinhos até as aulas de dança. Com isso, a história ganhou um tom nostálgico pra mim e acabei fazendo uma viagem no tempo. 

Estes contos são ótimos complementos para a história apresentada em Extraordinário, R.J. Palacio sabe dar voz a diferentes personagens de forma única, não há como negar. Sua narrativa tem um tom extremante sincero e nada hipócrita, mesmo que nos cause repulsa em certos momentos. Eu acrescentaria um conto para o Sr. Buzanfa - aprendemos tanto com as "pequenas" interações dele com os alunos, imagina uma história todinha dele? Foi ótimo poder ter contato com este "mundo" novamente e ver que, mesmo três anos depois, o livro ainda continua na minha lista de indicações.

[Resenha+Promo] Para todos os garotos que já amei - Jenny Han

Lara Jean guarda suas cartas de amor em uma caixa azul-petróleo que ganhou da mãe. Não são cartas que ela recebeu de alguém, mas que ela mesma escreveu. Uma para cada garoto que amou — cinco ao todo. São cartas sinceras, sem joguinhos nem fingimentos, repletas de coisas que Lara Jean não diria a ninguém, confissões de seus sentimentos mais profundos.
Até que um dia essas cartas secretas são misteriosamente enviadas aos destinatários, e de uma hora para outra a vida amorosa de Lara Jean sai do papel e se transforma em algo que ela não pode mais controlar. Sinopse retirada do Skoob.

Para todos os garotos que já amei causou um burburinho (estou amenizando, eu sei) na internet desde o lançamento. Apesar de algumas oportunidades anteriores, este foi o primeiro livro que li de Jenny Han - ela já publicou a trilogia Verão pela Galera Record (O verão que mudou minha vida é o primeiro) e, pela Novo Conceito, a trilogia Burn for Burn (Olho por Olho e Dente por Dente são os já publicados por aqui). Diante da unanimidade das opiniões que li, não pude resistir e fui conferir o que de tão bom este livro tinha.

Para todos os garotos que já amei é aquele tipo de livro que encanta, mas você não consegue dizer exatamente por que ele é bom, você só sabe que adorou e pronto. Ele não tem uma protagonista badass, um romance intenso ou um dramalhão familiar. Ele é simples, tem uma protagonista comum, um romance em desenvolvimento e um relacionamento familiar - como na vida real. Acredito que é essa sutileza que cativa, que nos faz ficar grudados no livro querendo saber o que vai acontecer a seguir, mesmo que não tenha aquele momento de plot twist, um mistério de roer as unhas e essas coisas. Você só quer acompanhar aqueles personagens, dar uma ajudinha de vez em quando e se compadecer de certas situações.

"O amor é assustador: ele muda, ele pode ir embora. Esse é o risco. Eu não quero mais ficar com medo."
As irmãs Song são um caso à parte. Cada uma delas merece um livro com a própria história, sem dúvidas. Kitty é aquela irmã mais nova fofinha, mas bem esperta e o que me agradou é que ela não foi infantilizada, ela até ganha responsabilidades e não é mimada. Fiquei sem entender bem quem na verdade é Margot, como o livro é narrado em primeira pessoa, acredito que há uma certa idealização por parte de Lara Jean e isso acabou despertando minha curiosidade - sério, seria ótimo ler mais sobre ela. 

A dualidade dos personagens os tornam reais, alguns começam se mostrando algo, mas com o decorrer da história vamos percebendo que não é bem assim. Mais um ponto para Jenny Han, claro. Ela não se prende a rótulos e os poucos citados acabam desconstruídos - aí fica a difícil tarefa para o leitor: por quem torcer? Quem tá certo na história? Existe um lado para ficar ou vai por afinidade, Bial?

Estava divagando ainda esta semana no twitter sobre o sucesso do livro e, para mim, os YAs tanto tentaram ser os "diferentões", surpreendentes que acabaram saindo muito da realidade, aí chegou Para todos os garotos que já amei com sua simplicidade, fofura e coerência e PAH, causou empatia nos leitores. Ele não é clichezão, viu, gente? Aliás, seu final é um pouco desesperador e fez surgir uma certa necessidade de spoiler, mas vou esperar para ler na continuação. Enfim, esse é um livro adorável que vou indicar com aquela carinha que diz "só leia, miga".

Sorteio

Em parceria com a Intrínseca, vamos sortear um exemplar de Para todos os garotos que já amei. Para participar, preencha o Rafflecopter abaixo e boa sorte! A primeira entrada é livre e, para mais chances, preencha as demais opções.
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Mini-opiniões: A Febre - Megan Abbott


"Na Escola Secundária de Dryden, Deenie, Lise e Gabby formam um trio inseparável. Filha do professor de química e irmã de um popular jogador de hóquei da escola, Deenie irradia a vulnerabilidade de uma típica adolescente de 16 anos. Quando Lise sofre uma inexplicável e violenta convulsão no meio de uma aula, ninguém sabe como reagir. Os boatos começam a se espalhar na mesma velocidade que outras meninas passam a ter desmaios, convulsões e tiques nervosos, deixando os médicos intrigados e os pais apavorados. Os ataques seriam efeito colateral de uma vacina contra HPV? Envoltos em teorias e especulações, o pânico rapidamente se alastra pela escola e pela cidade, ameaçando a frágil sensação de segurança daquelas pessoas, que não conseguem compreender a causa da doença terrível e misteriosa."

Depois de ouvir sobre A Febre durante a Bienal, imediatamente o coloquei na minha lista de leituras, afinal prometia ser um grande e instigante mistério. O livro tem um ritmo diferente, enquanto eu esperava uma linha interrupta de fatos, daquelas que não conseguimos largar até concluir, A Febre apresenta cenas quebradas, indo e vindo através de personagens diferentes, ora focando no "mistério", ora na rotina e dramas pessoais. Isso foi um obstáculo pra mim, pois não via relevância daquilo no enredo. 

Sabe quando transformam um livro em série televisiva e aí surgem vários personagens com histórias paralelas para preencher o enredo? A minha sensação aqui foi essa, só que como se pegassem a série e transformassem em livro. Nisso, surgiu outro problema: queria prestar atenção em tudo, pois como estava lendo um suspense, queria estar atenta aos detalhes para pegar pistas. E nisso foram três meses pra conseguir concluir a leitura de um livro de pouco mais que 250 páginas. E todos os detalhes serviram para: nada. Eu acreditei que o final guardava algo surpreendente, que me fizesse pensar "nossa, que idiota eu fui, a autora é genial 😱", mas não, simplesmente não.

Não encontrei o que procurava, não achei "sombrio, perturbador e estranhamente fascinante" como o blurb de ninguém menos que Gillian Flynn. Fica pra próxima, Megan.

P.S. Este mesmo texto vocês podem encontrar no meu instagram - estou sempre comentando minhas leituras por lá, então fiquem à vontade para seguir :) @ceilem