A química que há entre nós - Krystal Sutherland

Quando terminei este livro, fiquei sem saber muito bem se tinha amado muito ou não gostado. Foi uma leitura diferente, difícil de classificar. Marquei muitas passagens, me envolvi na história, gostei dos personagens e do desenvolvimento do enredo, mas não teve algo arrebatador que eu consiga destacar como o grande atrativo do livro ou algo que me impulsionasse a ler sem parar. Ao mesmo tempo, a história não apresentou nada que deixasse a leitura cansativa ou me fizesse querer desistir. Foi como ler um livro do John Green - e eu definitivamente gosto das obras dele - e não saber explicar, só sentir. É o tipo de narrativa e construção de enredo que só lendo para saber se você vai gostar ou não.

Já que falei do John, não teve como não pensar em Cidades de Papel... Primeiro por Grace Town. Ela me lembrava muito a personalidade misteriosa da Margot. Depois vem Henry totalmente instigado a desvendá-la e seus amigos com suas particularidades (ah, como eu adorei conhecê-los!). Apesar de certas semelhanças, acredito que a abordagem em A química que há entre nós seja mais real, atrativa e menos aventureita. Henry vai delineando suas descobertas após fazer a constatação que está realmente apaixonado pela Grace que, por sua vez, não deixa muito claro o que quer ou o que sente. E obviamente acaba por atiçar ainda mais a curiosidade do pobre garoto (sim, gente, tadinho).
Muz  sussurrei ao chegar à casa de Murray e começar a bater na janela de seu quarto. Ninguém respondeu, então levantei a janela, me reboquei para dentro e peguei no sono, sozinho e totalmente vestido na cama de Murray, pensando em Grace Town e em como, se as pessoas realmente eram formadas de pedaços do universo, sua alma era feita de poeira de estrelas e caos.
Olha, bem incomum o que vou falar, mas se você gosta de twitter, acho que vai gostar muito do livro. É bem aquele clima de tá tudo dando errado e a gente tá fazendo meme. E, sim, Henry entende de memes. Ah, isso é fundamental né nom. O livro tem um humor depreciativo, uma melancolia trágica e bem humorada. Agora, se você gosta da outra rede, acho, sinceramente, que não vai curtir. A história não tem aqueles clímax explícitos que os textões trazem. Não é uma história óbvia, é cheia de simbolismos e reflexões. Os personagens não são os populares ou totalmente losers, são aqueles aquém dos grupinhos, com uma linguagem que só eles entendem.

Eu marquei o livro como favorito, mas sei que não vai funcionar para todo mundo, por isso uma indicação bem precisa assim. Vale muito a pena ler, marcar quotes, amar os pais do Henry e ficar em dúvida se dá pra torcer pelo casal ou não, já que parece indiferente o desfecho disso. O importante aqui é o que desenrola entre a chegada de Grace até Henry aprender a lidar com tudo que sente. Nesse meio, ele vai desvendando os segredos dela, entendendo o por quê das roupas masculinas e a predileção por não lavá-las e, ok, cheirar um pouco mal. Mais do que isso, Henry vai tentando entender tudo que ela provoca dentro dele, já que nunca havia se apaixonado dessa forma.
(...)  Você não pode projetar suas fantasias nas pessoas e esperar que elas cumpram o papel, Henry. As pessoas não são recipientes vazios para você encher com seus devaneios.
Ai, realmente não sei o que falar desse livro, mesmo estando no quinto parágrafo, parece que não foi o suficiente, mas é fato que funcionou muito comigo e mesmo sem ter uma grande sacada ou algo transformador, é um tipo de leitura que gosto de fazer e sinto falta desde que li (quase) todos os livros do John Green. Há tempos eu não marcava tanta coisa num livro nem me sentia como o protagonista, fazendo o famigerado papel de trouxa. 

Boston boys - Giulia Paim

Boston boys parecia o remédio certo para me curar de uma ressaca literária no começo do ano: história jovem, uma banda famosa e uma garota nem aí para eles que é obrigada a conviver com um dos garotos. Sim, ainda tenho uma quedinha por histórias envolvendo ídolos + pessoas comuns, mesmo que ainda não tenha achado um arrebatador que suprirá minhas expectativas. Porque não, Boston boys nem chegou perto de ser uma leitura agradável. Pelo contrário, me irritou. Vou explicar, claro.

Muitas coisas me incomodaram nesta história e vou começar pela protagonista e narradora da história, Ronie. A sensação que me acompanhou durante toda a leitura foi a histeria dela. Não sei como explicar direito, mas parecia que ela estava sempre gritando ou brava ou reclamando de forma agitada. Ela é extremamente dramática e isso poderia dar um ar mais engraçado (que acho que era a intenção) se fosse de forma mais moderada, mas acabou ficando cansativo. 

Depois, veio a mãe dela. Já é estranho que ela tenha mudado não só de emprego, mas também de profissão há meses e as filhas não estavam sabendo, aí a mudança só é avisada quando surge a "necessidade" de Madson - um dos garotos da banda - morar com elas. Imagina agora uma mãe que é super dura com a filha e recebe o novo morador como uma eterna visita, obriga a filha a fazer as vontades dele, além de outros caprichos e tá sempre contra a filha nas discussões entre eles. E a filha tem que aceitar e "servir" o garoto. Para completar o combo, ainda é bem avoada e comete umas irresponsabilidades.

Madson é folgado. Tudo de chato dele que vem depois surge daí. A irmã de Ronie, Mary, tem 11 anos e não entendi se ela é infantilizada demais ou subestimada, porque ela desenvolve uma paixão por um dos integrantes que, a princípio, parece ser inofensiva, mas de repente eles estão escondendo as coisas dela por medo de que ela fique magoada e eu fiquei ????, depois ela tenta boicotar um encontro do garoto e acho que faltou limites, porque né... Ainda tem uma fã stalker que muda de cidade atrás dos garotos - ela é adolescente, veja bem -, faz ameaças à Ronie, está sempre à espreita, no quintal, no gramado vizinho, no shopping... Assim e tudo bem. Nenhuma consequência, nenhuma denúncia, nenhum medo de nada.

Tudo dá errado no livro por ele ser inverossímil. Foi tanta incoerência junta que nada tem credibilidade, tudo é questionável e digno de revirar os olhos. Não há qualquer profundidade nos personagens, tudo é tentativa - que acaba não dando certo e se torna um ponto negativo. Não poderia faltar a representação da família no livro, aí ela tá lá - os adultos são tão irresponsáveis, imaturos que não dá. O ambiente escolar é totalmente desestruturado. A fama dos garotos é enorme, mas lá estão eles transitando tranquilamente, indo no shopping e tendo uma multidão pedindo fotos, mas conseguindo comprar pipoca, assistir o filme, entre outras coisas. O livro parece uma fanfic onde só se vai escrevendo sem muito compromisso de fazer aquilo parecer real, como uma fantasia adolescente com sua banda favorita. Toda a ideia do livro é muito boa e atraente, mas o desenvolvimento não deu certo pra mim.

Agora uma coisa que me incomodou mesmo foi uma passagem em que saem algumas notas em um site de fofocas e uma delas é sobre Ryan e Henry, dizendo que ambos estão tendo um relacionamento. Quando a pequena (?) Mary pergunta se é verdade, toda chorosa, Ryan diz "eu sou macho". Mais especificamente "(...) Pequenininha, eu sou macho! Nada contra quem é, mas... eu sou macho! Macho mesmo!". Espera, que ano é hoje? Um livro para adolescentes reproduzindo este tipo de comportamento é bem triste. Acredito que faltou cuidado na edição, porque é a segunda vez que me deparo com algo assim (assunto para outro post). Aí, como se não bastasse o cara falando isso, lá está a garotinha reproduzindo a fala e depois ainda tem um "Ah, então foi só um boato... Menos mau, né?". Não dá.

Os acertos estão em não forçar romance, coisa que eu jurava que ia acontecer - estava errada, amém -, a escrita da autora que é muito fluida, fácil de ler e se ambientar, além do humor de certas cenas. Então sem dúvidas eu leria outras histórias da Giulia, mas esperando mais maturidade na construção do enredo. Não deu dessa vez, mas sei que a história pode (e muito!) divertir os leitores mais jovens que procuram algo leve.

Mini-opiniões: Domados pelo destino - Sheila Guedes

Maysa é forte, destemida e sabe bem o quer. Dona de uma beleza impactante é conhecida na faculdade pela personalidade marcante, mas o que ninguém sabe é que essa mulher que mais parece um furacão tem pavor de perder o controle da sua vida.
Ian é um estudante de direito e surfista nas horas vagas. Pegador assumido, vê sua vida mudar completamente quanto conhece a intempestiva Maysa.
Desde o primeiro encontro a relação dos dois é intensa, mas o ciúme que sentem um do outro - e um terrível mal entendido - os separa.
Será que os anos de separação modificaram a maneira de cada um encarar a vida?
Será que a saudade massacrante os ensinou algo?
Será que a paixão que os uniu um dia é capaz de restaurar a confiança na relação ao ponto de reconcilia-los?
Depois de algumas mudanças (internas), fiquei bem chatinha para leitura. Começo vários livros, mas poucos me prendem o suficiente para eu concluir a leitura - sendo a experiência boa ou ruim. Com isso, quando eu pego um livro que me faz perder a noção do tempo, querer sempre um capítulo a mais e traz aquela velha sensação - hoje rara - de ler compulsivamente, é porque ele tem seu mérito.

A história de Domados pelo destino é intensa, Maysa e Ian vivem um relacionamento visceral - daqueles cheios de mal entendidos, orgulho e maturidade. Parece contraditório ter essas duas primeiras características junto da maturidade, mas a narrativa é no presente, onde os personagens têm a oportunidade de olhar para trás, contar o que os levaram até aquele momento em que estão separados. Muita coisa mudou entre o início, o fim e o que veio depois, mas o amor é atemporal. Entre ressentimentos e inseguranças, lá estão eles tentando, de uma vez por todas, arrumar as coisas e retomar tudo que haviam perdido nesse furacão que foi a relação (aff, não queria mesmo tantos "ão" na frase, mas nem o dicionário de sinônimos ajudou).

A autora conduziu tudo com tanta perfeição que não questionei em nenhum momento as escolhas dos personagens ou o caminho que tudo estava tomando. Está tudo muito crível e equilibrado, não faltam cenas românticas ou de brigas - eu reclamei do excesso de idealização no outro livro -, os personagens secundários são interessantes e necessários, realmente não há nada que tenha deixado a história maçante ou desinteressante. Tudo soma ao objetivo final. Os inícios dos capítulos tem trechos de músicas e outros textos que continuo amando fortemente, além da narração dupla: Ian e Maysa. Detalhes que enriqueceram ainda mais a obra.

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA EU AMEI MUITO MESMO REAL OFICIAL

Sério, se você gosta desses livros intensos, com romance e tretas, vem ler esse aqui.

Links: Skoob | Amazon

(este mesmo conteúdo foi postado no meu instagram @ceilem)

5 livros juvenis para ler em um dia

Eu amo listas, mas confesso que minha criatividade para elaborar novas anda em falta. Eu olho para a minha estante de lidos e não consigo achar um assunto em comum para relacioná-los pessoas sem inspiração me add. Mas mexe daqui, mexe dali, acho que encontrei alguma coisa.

Não custa lembrar que são livros jovens, com narrativa leve e com atrativos específicos para despertar a imaginação desse público - algumas coisas realmente não aconteceriam na vida real, mas certas facilidades e conveniências são totalmente aceitas aqui, desde que naquele universo criado (seja pelo autor ou pela mente do leitor) seja possível.

Ela está em todo lugar - Cherie Priest

Ela está em todo lugar foi uma das maiores surpresas literárias que já vivi. Eu tenho uma mania de sempre ler a primeira página de um livro que acabou de chegar, independente do que estou lendo (a menos quando chega uma caixa cheia deles, claro) e foi assim com este livro também. A diferença é que não consegui largar até terminar tudo e sair espalhando por aí o quanto ele é maravilhoso. É uma história de mistério, investigação e suspense a partir da morte de uma garotinha - chorei muito logo no primeiro capítulo. Mas posso falar que é fofa sem parecer mórbida? Posso sim, porque é! Porque, impulsionando o início da jornada da protagonista, está a amizade. Livy e May se conheceram na escola e criaram juntas a Princess X - uma desenhava, enquanto a outra escrevia. Porém, em um trágico acidente de carro, Livy e sua mãe morrem, deixando May totalmente devastada. Passados três anos, May volta à cidade para visitar o pai e encontra pôsteres e outros materiais com a imagem da Princess X - o que choca a garota, uma vez que só as duas sabiam da personagem. Ao pesquisar sobre, May encontra um site onde é postado regularmente a história da Princess X. É aí que ela decide procurar pistas nos quadrinhos, pois passa a desconfiar que sua amiga não morreu. A mistura da narrativa em texto e quadrinhos dá uma dinâmica ainda maior para o livro que já é bastante instigante. Não consigo nem escolher uma parte ou outra como favorita, ambas se complementam muitíssimo bem e eu só queria seguir mais pistas e solucionar o mistério.

Como ficar com Rick - Julie Fison

Como ficar com Rick é um livro diferente e conheço somente mais um nesse estilo (que é, inclusive, direcionado apenas para o público adulto). Kitty está diante de um dilema: ir acampar com as melhores amigas conforme o combinado ou ir para o Portal do Paraíso com uma menina popular do colégio com quem não tem amizade, mas é onde Rick, seu crush há meses, estará. A novidade começa aí: quem vai escolher o próximo passo é o leitor. Se você quiser isso, vá para a página tal; se você escolher aquilo, vá para tal. E a história vai seguindo a partir dessa e outras escolhas. Além desse dinamismo na leitura, a história é uma gracinha e tem um clima bem gostosinho de férias. Claro que depois de terminar a história escolhida, você acaba lendo a outra opção que é igualmente divertida.

Amanhã você vai entender - Rebecca Stead

Amanhã você vai entender é, entre os livros listados, o que mais requer atenção na leitura - a trama é um pouco mais densa, apesar da escrita simples, poética e inocente já que a narradora tem apenas 12 anos. Miranda e Sal eram inseparáveis, mas um dia quando voltavam juntos da escola, um garoto bateu em Sal do nada e a partir daí, ele se afasta totalmente da melhor amiga sem dar explicações. Coisas estranhas começam então a acontecer: sua chave de casa some, ela começa a receber bilhetes enigmáticos e o garoto que bateu em Sal parece mais presente onde ela vai. O livro tem uma delicadeza na escrita, um cuidado que vemos até nos títulos dos capítulos. Não sei dizer o que me prendeu mais: as reflexões sutis que a obra traz ou a ânsia de montar o quebra-cabeça inteiro para desvendar a história. É o tipo de livro que encanta, vamos lendo sem saber muito bem o que esperar, só vamos nos deixando conduzir rumo ao desfecho e aí tudo faz sentido e dá até vontade de reler para observar melhor as pistas deixadas na narração. 

Disaster baby - Lilian Iaki

Disaster baby eu recebi de surpresa e naquela coisa de ler a primeira página, li o livro inteiro no mesmo dia. Além da história envolvente, a formatação do texto tem um espaçamento maior e possui algumas ilustrações. O início da trama acontece quando a protagonista está sentada na mesa de um barzinho em São Paulo esperando o cara com quem tá ficando. Ele simplesmente não aparece e é então que surge Olhos Verdes, alguém também sozinho ali bem disposto a ouví-la. Com esta introdução, a história parece adulta demais para esta lista, mas é quando a garota começa a explicar porque sua vida amorosa é um desastre que vamos mergulhando nas suas lembranças: o primeiro beijo, a primeira vez que se apaixonou por alguém e como tudo sempre acabou da forma errada. Ela é bem dramática, claro, mas quem passou por essa fase de descobertas sem se sentir perdido, né? A narrativa se passa em uma noite com vários flashbacks, o que torna a leitura rápida, dinâmica, mas um pouco superficial. Pra mim, a leitura foi nostálgica por já ter passado por esta etapa há anos e foi uma delícia revisitar minhas próprias memórias.

Primeiro amor - James Patterson e Emily Raymond

Eu só lembrei de Primeiro amor quando olhei a estante do Skoob procurando os livros que eu li em um dia. Ainda lembro do momento que fiz a leitura e da história, o que é um ponto bem positivo para um livro mediano/bom. Eu considero este livro uma versão juvenil e mais inocente de Entre o agora e o nunca (que é maravilhoso, né?). Axi é uma garota bem certinha com uma vida marcada por trágicos acontecimentos enquanto seu amigo Robinson é totalmente diferente e ela mesma o apelidara de cafajeste. Numa súbita vontade de sair daquela bolha, Axi convida o amigo para sair em uma road-trip, mas nada politicamente correta. Ambos partilharão aventuras e descobertas, além de momentos  tristes e delicados. Apesar de eu ter falado que o livro é mediano, a leitura é bem agradável, só não dá para exigir muito, sabe? Acho uma ótima escolha para distrair, sem contar que a trama é recheada de sonhos jovens e tudo é bem vívido.  

[Resenha+Promo] Quem era ela - JP Delaney

É preciso responder a uma série de perguntas, passar por um criterioso processo de seleção e se comprometer a seguir inúmeras regras para morar no nº 1 da Folgate Street, uma casa linda e minimalista, obra-prima da arquitetura em Londres. Mas há um preço a se pagar para viver no lugar perfeito. Mesmo em condições tão peculiares, a casa atrai inúmeros interessados, entre eles Jane, uma mulher que, depois de uma terrível perda, busca um ponto de recomeço. Jane é incapaz de resistir aos encantos da casa, mas pouco depois de se mudar descobre a morte trágica da inquilina anterior. Há muitos segredos por trás daquelas paredes claras e imaculadas. Com tantas regras a cumprir, tantos fatos estranhos acontecendo ao seu redor e uma sensação constante de estar sendo observada, o que parecia um ambiente tranquilo na verdade se mostra ameaçador. Enquanto tenta descobrir quem era aquela mulher que habitou o mesmo espaço que o seu, Jane vê sua vida se entrelaçar à da outra garota e sente que precisa se apressar para descobrir a verdade ou corre o risco de ter o mesmo destino.
Apesar da vontade, eu não costumo ler tantos thrillers que são aclamados por aí, muitas vezes não tenho paciência para esperar a apresentação de cenário, personagens entre outras coisas que normalmente este tipo de história requer - o que acaba por me afastar de fantasias também. Eu sou apressada e já quero ação, já espero um choque nas primeiras páginas, então quando isso não acontece, acabo deixando o livro meio de lado. Claro que é algo a ser mudado, eu preciso ter leituras mais contemplativas, que exigem um pouco mais da minha atenção, mas neste momento as leituras viscerais são as minhas preferidas. 

Quem era ela é para leitores como eu: gostam do gênero, mas não são pós-graduados em Sherlock Holmes. Ele tem muitos atrativos para quem está transitando entre os gêneros: capítulos curtos, divididos entre passado e presente, duas narradoras, poucos personagens secundários, mas marcantes e necessários - não exige esforço para lembrar quem é quem -, narrativa bem visual e poucos cenários - isso poderia ser entediante, mas aqui é um ponto positivo, uma vez que não enche o livro de informações desnecessárias, a casa é altamente importante e possui características o suficiente para ser uma personagem protagonista. Há muitas reviravoltas, muitas mesmo, então não dá para prever o final, mas também não dá para criar muitas teorias, tudo é conduzido sem uma aura de suspense ou meias palavras. As informações vão surgindo e vamos descobrindo junto das personagens.

Este livro é um encontro de pessoas problemáticas, todos são, à sua maneira, imprevisíveis, o que vai formando uma teia que envolve passado, mentiras, suposições, descobertas - você não sabe quem está sendo manipulado: a narradora ou o leitor, se as personagens são sensatas, cegas ou ardilosas. A condução da história não me causou desconfiança, mas uma ansiedade de como incriminar o criminoso, qual seria a prova cabal para desmascará-lo, porque tudo aponta para uma pessoa. Mas a todo momento há uma mudança e as teorias vão mudando. 
A narrativa é direta e simples, por isso não tive dificuldade de entender os desdobramentos nem fiquei me questionando se tinha entendido direito. Apesar de ser dividido entre antes e depois, os capítulos se completam sequencialmente. Algumas questões que separam as partes do livro me deixaram bem intrigada, porque eu simplesmente não sei o que faria. Foi um livro que li em um dia e meio totalmente presa à história, do jeito que gosto. Meus momentos favoritos estão com a terapeuta Carol - me fascinou, simplesmente. Eu realmente aprendi coisas relacionadas à psicologia lendo. Inclusive, todas as marcações foram de explicações dela. Há coisas relacionadas à arquitetura também, o livro é muito bem trabalhado nas coisas que expõe, gostei muito disso também.

Apenas o final foi um pouco corrido, mas com todas as pontas amarradas. É uma obra sucinta, sem grandes artifícios desnecessários, nada é desperdiçado, sabe? Tem um pézinho no romance, mas é muito mais para explorar as personalidades e comportamento humano, nada para shippar, ok? O clima me lembrou de A garota no trem, acredito que quem gostou de um, pode gostar do outro também. Minha leitura foi totalmente na surpresa, não li sinopse e isso fez muita diferença na experiência, por isso indico que vocês façam o mesmo.

Sorteio

Em parceria com a Intrínseca, vamos sortear um exemplar do livro Quem era ela. A primeira entrada é livre e, para mais chances, preencha as demais opções. O envio será feito diretamente pela editora (veja regras gerais de sorteios efetuados no blog neste link).

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5 músicas que me acalmam (era a ideia inicial)


Em 2015, de uma forma muito especial, Deus me chamou para uma conversa muito séria. Como eu já tinha falado naquele post, eu estava em uma situação muito crítica, apenas sobrevivia sem a menor expectativa de ter um dia seguinte melhor e, o que eu considero ainda pior, sem a vontade que o dia seguinte chegasse, se é que você me entende... Como eu não era de externar muito as coisas, achava que ninguém percebia que tinha algo errado, mas lendo todas as mensagens das pessoas que conviviam comigo, vi que era impossível não notar. 

Aí, no tempo certo, Deus veio falar comigo e foi nisso que tudo mudou. Ele realmente me renovou - quem me encontra na rua, vai sempre me ver sorrindo e não é porque sou uma pessoa mega feliz e realizada, eu só não consigo ser diferente. Posso estar em um dia péssimo, numa angústia absurda, eu não consigo descontar nas pessoas que passam por mim, eu ainda tenho sorrisos para distribuir, palavras confortantes que eu mesma deveria ouvir naquele momento. Não é forçado, não tento passar uma imagem que não condiz com a realidade. É natural. Não consigo evitar. É uma mania de tentar ver o lado bom das coisas, sabe? Assim, bem Pollyanna mesmo. No fundo, eu sei que é Ele agindo. Eu simplesmente sei que aquele sentimento ruim é temporário, que Ele sempre terá o melhor pra mim e que tudo está sob seus cuidados.

Como é confortante ter essa esperança, sabe? Eu passo por muitas tribulações, muita prova e dor, mas eu vou conversando com Deus, vou pedindo auxílio e Ele nunca falta com a resposta. Às vezes, demoro a enxergar, mas nunca fico sozinha e desamparada. Isso é muito incrível, porque eu não deixo de passar pelas coisas ruins, mas eu tenho uma mão me guiando, eu tenho uma voz que vai me deixando segura e quando me dou conta, já estou em paz de novo e até pensando "caraca, como eu caí naquilo? Era tão simples!". De tudo consigo tirar um aprendizado e logo vou para a próxima prova e tento não cometer os mesmos erros, mas como sou eu, cometo novos e fico assim, sendo moldada por Ele. Não é cômodo servir a Deus, é uma busca constante, mas eu digo pra vocês que vale a pena demais! É um sentimento que não dá pra entender, você tá lá se ferrando todo, mas tá rindo igual besta, porque sabe que aquela dor não é para sempre, que há uma saída, que coisas boas virão e tudo mais. 

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA, eu preciso me controlar nos textões! Eu ia fazer um post simples só pra falar de músicas que me acalmam na hora que a bad vem sem dó e estou aqui no quarto parágrafo! Enfim, esses louvores/hinos avulsos são mais para aqueles momentos em que preciso me lembrar de todas as promessas que Deus me fez, de onde Ele me tirou e que eu só preciso confiar, deixar nas mãos Dele. Vou colocar as versões que eu gosto de ouvir, não tô levando em conta qualidade de áudio, vídeo e tal. É só aquilo que realmente me toca (e limitei a cinco, mas tenho uma lista bem grande hahaha). Lembrando que não são músicas relaxantes, por assim dizer, são músicas que falam comigo de alguma forma.

Aquieta Minh'alma - Ministério Zoe

Te chamo de Esther

Se eu tiver que levantar do trono

Deus do impossível - Toque no altar

Acalma o meu coração - Anderson Freire

Preciso falar que ainda fico um pouco insegura sobre esse tipo de post aqui, mas é o meu espaço onde quero compartilhar minhas coisas, então não sei a frequência que abordarei esse tipo de assunto, só quero deixar claro que em algum momento vai acontecer - assim como outras coisas que também tenho vontade de falar aqui. Inclusive, adoraria receber sugestões, dúvidas etc. É tudo muito bem vindo.

Onde me encontrar: twitter @EsteJaLi | instagram @ceilem 


"Por meio de Jesus, portanto, ofereçamos continuamente a Deus um sacrifício de louvor, que é fruto de lábios que confessam o seu nome." Hebreus, 13:15 

Você precisa ler: Quando Saturno voltar (Laura Conrado)

Em seu novo romance, Laura Conrado conta a história de Déborah Zolini, uma jornalista sonhadora e fã de Pablo Neruda que trabalha como assessora de imprensa de um clube de futebol da segunda divisão e namora o médico Sérgio há quatro anos. Ela faz planos de construir uma vida a dois, arrumar um emprego melhor e correr atrás de desejos que ainda não realizou. Só que a vida, ou as estrelas, guardam surpresas para Déborah. Em uma viagem ao Chile, ela encontra uma mulher misteriosa que lhe fala sobre o retorno de Saturno. O planeta, que leva, em média, 29 anos para dar uma volta no sistema solar, voltará à posição em que se encontrava quando a jornalista nasceu. Para quem acredita em astrologia, esse é momento em que as pessoas passam por várias mudanças, que vão prepará-las para encarar o resto de sua vida. Déborah não leva a moça muito a sério, mas pede às estrelas que a ajudem a realizar seus desejos. No entanto, no voo de volta ao Brasil, um encontro inesperado começa a abalar a vida aparentemente certinha da protagonista. Aos poucos, Déborah começa a notar que seu namoro anda meio morno, a falta de reconhecimento no trabalho a incomoda. Ela começa a admitir que não está gostando do rumo que as coisas estão tomando. Será a hora de partir para novos desafios? Trocar aquele relacionamento confortável pelo frio na barriga? Sair de vez da zona de conforto e ver o que acontece?
Li Quando Saturno voltar no meu pior ano de leitura (2015) e posso dizer que todos os livros concluídos naquele ano têm certo mérito por terem me prendido até o final. A parte ruim disso foi que eu não conseguia indicá-lo adequadamente por aqui - se você tem um blog/canal no youtube/instagram, sabe bem qual a sensação de querer muito indicar um livro, mas acabei indicando muito pessoalmente para as amigas e no snap. Em compensação, li no melhor momento - eu estava (e ainda estou) passando por um momento de transformação e reflexão que bateu exatamente com a história da Déborah.

É claro que o livro é bom para todos os públicos, mas eu preciso fazer um apelo às mulheres de 22 a 32 anos (ou por aí): LEIAM ESSE LIVRO! A gente tá acostumada a ler YAs (mais jovens), NAs (quase lá) e até chick-lits (na faixa) importados e, por mais que nos identifiquemos com certos pontos das histórias, a realidade é bem distante. Aí tá a vantagem de um chick-lit nacional: a protagonista não vive só situações absurdas, ela vive tudo aquilo no mesmo lugar que você, com os mesmos costumes, há uma familiaridade cultural. A Déborah carrega tanto das mulheres brasileiras e tem coisa mais linda do que se ver compartilhando dos pensamentos da personagem do livro?


Em algum momento da vida vamos questionar nossas escolhas (ou a falta delas, né?) e vamos ansiar por mudanças que vão além do corte ou cor do cabelo, mas sem fazer a menor ideia de por onde começar. Aí vem a vida e começa a exigir essa transformação e você faz o quê? Bem, não há escolha a não ser se reinventar. E é exatamente disso que o livro fala. Isso é atribuído ao Retorno de Saturno (adorei saber mais sobre! Saio falando pra todo mundo) e, acreditando ou não, essa fase na sua vida vai chegar (ou você está passando por ela agora ou já sobreviveu - inclusive, me conta aí, tudo resolvido?).

É claro que eu poderia falar sobre o quanto a história é engraçada, o quanto a escrita é fluída e a leitura é rápida e leve (apesar da profundidade dos dramas do enredo). Laura tem uma mania maravilhosa de falar muito em poucas páginas - ela conta uma história bem completa sem enrolar demais, mas também não corre em nada. Posso falar de vários aspectos, mas nada me chama mais atenção do que esta identificação, seja com a rotina, os dramas, as necessidades ou a própria personalidade da protagonista. Déborah é uma mulher real e você vai se ler nela em algum aspecto. Tem também aquilo bem vida real que é: nada tá tão ruim que não possa piorar. Pois é, mas assim como tem o tempo para o choro, tem o tempo da alegria também e como é lindo o final dessa história. Sobre o livro físico, está a coisa mais linda! Além dessa decoração na guarda e quarta capa, cada início de capítulo traz uma frase de Pablo Neruda - o que tem tudo a ver, já que o ponto de partida é uma viagem ao Chile. Ahhh, tem também outro livro muito legal da Laura que já indiquei aqui, mas vamos lá de novo: Freud me segura nessa!


Se ainda ficou alguma dúvida, vai lá ler o livro rapidão só pra testar uma coisa.

Onde encontrar: Skoob | Americanas | Extra | Submarino

Precisamos falar sobre a Ceile (eu mesma, no caso)

Eu sempre tive uma dificuldade imensa de falar de mim mesma. Sou uma excelente ouvinte, sempre pronta para pensar em soluções para os problemas alheios e aconselhar sem qualquer julgamento. Mas quando chega na minha vez, eu não consigo me abrir. Meço palavras. Não revelo muito. Guardo, ignoro. Não acho que é relevante. Parece drama. Sei que a outra pessoa não vai poder resolver e logo desisto de ocupá-la com as minhas bagunças. Tenho uma visão muito clara dos meus problemas, o que tenho que fazer sem que ninguém precise falar, só simplesmente... não faço. 

No começo de 2014 fiz o texto que acho que é o mais pessoal que esse blog já teve. E aquilo foi o máximo que já consegui chegar de escrever e publicar sobre mim, mas basta lê-lo para ver que está todo enfeitado de palavras que escondem os fatos exatos. É tudo muito vago, apesar do sentimento ser verdadeiro. Para que me expor? Falar das minhas verdadeiras inseguranças? Ninguém vai entender. 

Já tentei ter diários quando mais nova, mas minha mãe saía mexendo nas minhas coisas, meus cadernos, meu guarda-roupa e tirava qualquer sentimento de privacidade que eu podia ter. Isso me deixou receosa de escrever e ela encontrar. É possível mexer nos meus antigos cadernos e encontrar desabafos que eu sabia que ela leria - por mais bem guardados que estivessem, então eu escrevia na intenção disso. Desafiando. Quer saber das minhas coisas? Não consegue simplesmente conversar comigo? Então leia. Minhas frustrações. Minha raiva. Minha agonia. Meus piores sentimentos. Eu não pude nem contar que estava grávida como eu passei o final de semana planejando. Estava fora e quando voltei na segunda-feira pronta para colocar em prática, ela tinha encontrado minha agenda com o teste de gravidez. Frustrante, né?

Não preciso dizer a quantidade de discussões que tudo isso rendeu, certo? Então eu não conseguia conversar com as minhas amigas, também não podia escrever sobre mim, não havia um escape. Eu não queria conselhos, não queria uma lição de moral, só queria colocar para fora. Um ouvinte mudo. E eu não tinha. Veio então uma das fases mais determinantes da minha vida: conheci um cara muito bacana, nos apaixonamos, fazíamos tanta coisa juntos, éramos inseparáveis - se eu não dormia na casa dele, ele dormia na minha. Também troquei o curso da faculdade. Larguei a psicologia e parti para a administração, me encontrei. Conheci muitas pessoas. Me diverti demais. Engravidei. Assim, no primeiro ano da nova faculdade, saindo de um trabalho registrado e indo para um estágio na área. E agora? E todos os planos de me formar, trabalhar numa multinacional, fazer um intercâmbio? Tirando o intercâmbio, tudo aconteceu. Mas e o namorado perfeito? Ele disse que estaria do meu lado e esteve. Vamos casar? Vamos construir nossa casa? Para tudo isso a resposta seria sim, mas as coisas mudaram dentro de mim e ninguém conseguia entender ou perceber. 

Eu não queria casar, não com ele. Eu queria minha casa, não nossa casa. Eu não queria mais aquele relacionamento. Eu já não me via com ele no futuro. No início, não consegui deixar isso claro, só me esquivava. Nem eu entendia, afinal, eu estava grávida de um cara que até então era o melhor namorado do mundo. Ele não sabia lidar com meu afastamento repentino no momento que ele achou que estaríamos mais próximos. Começou com um ciúmes que eu não entendia. Parecia coisa boba, como sempre parece, mas foi crescendo. Era inadmissível que eu simplesmente não o amasse (sim, ele me perguntou e eu respondi a verdade). Tapa na cara. Literalmente. Sim, estou empregando o "literalmente" corretamente na frase. O tapa foi na minha cara, se ficar alguma dúvida. Sim, antes disso já tinha aqueles famosos sinais: discussões sem motivo, acusações falsas para desestabilizar, pressão psicológica, chantagem. Era insustentável. Meu filho já tinha nascido a essa altura e os meses se passaram com uma sensação de estar anestesiada. Continuei a trabalhar, estudar. Agora era mãe também. Só não conseguia ser esposa. E também não conseguia ser solteira de novo. 

No trabalho, uma colega falava de Crepúsculo. Como era maravilhoso, como Edward tratava a Bella e como era impossível não se apaixonar por ele. Como ler aquela história era viciante. Um vampiro? Até parece. Minha ex-cunhada havia comprado o dvd e deixado na sala de casa. Num domingo, saiu cedo com meu irmão para comer pastel na feira e eu, sozinha em casa, resolvi assistir aquela besteira. Não sei o que tinha ali, mas fui sugada para aquela história. A atmosfera de romance me fisgou e a sensação era muito boa. Um quentinho no coração. Voltei a falar com aquela colega do trabalho sobre a história. Mas ainda era estranho pensar em ler uma história assim. Será que vou gostar? Bem, vou comprar o livro na revista da Avon, custa só 12 reais. Se eu gostar, compro os demais. Se não curtir, não teria gastado tanto. Lua Nova estrearia dia 20 de novembro, eu teria exatamente um mês para ler e poder assistir o filme no cinema. Se eu achava que não era capaz de ler um livro em um mês, imagina que duas semanas antes da estreia, eu estava chorando desconsolada por ter terminado Amanhecer?

Virar aquelas páginas compulsivamente no caminho para a faculdade, depois para o trabalho, então para casa, me privava de pensar em tudo que estava acontecendo. A vida que eu estava levando. Me apaixonei - como previsto pela Débora - por Edward e concordava que aquele era o jeito de amar uma mulher. Era ceder, respeitar, conquistar. O Jake me tirava do sério. Eu não me interessava pelas suas histórias cansativas, seu jeito impositor, possessivo e agressivo era o contrário do que eu queria ver. Por favor, eu já vivia isso, né? Quando esses livros acabaram, eu precisava de outros. Como eu sobreviveria sem meu escape? E assim seguiu: eu comprava livros, pegava emprestado com outra amiga que também ficara apaixonada pela saga Crepúsculo e ia seguindo a vida. Minha separação finalmente aconteceu. Eu definitivamente não tinha mais como viver aquilo. Claro que ele não aceitou e lá se foram mais xingamentos, choro, chantagem. Foi embora. 

Uma semana, veio o pedido para passar o final de semana com o filho e, claro, qual o problema? O problema era não querer devolver. Querer usar de moeda de troca. Meu pequeno de 7 para 8 meses. Eu era a vagabunda que estava com as amigas da faculdade num domingo a tarde enquanto ele estava com meu filho na casa dele. Agora, se você quiser, vai ter que buscar ele só amanhã, no meu trabalho. Lá fui eu na segunda-feira, depois do trabalho, buscar meu bebê. O trabalho ficava numa rua totalmente de comércios, então àquele horário, 8 da noite, já estava tudo fechado, completamente deserto. A própria loja que eles estavam, estava fechada. Chamei, a porta foi aberta e eu obrigada a entrar. Gritos desesperados que ninguém ouviria. Sangue que ninguém viu. Uma tortura psicológica que não dá para explicar e muito menos imaginar. O choro assustado do meu filho que acordou com meus gritos, ninguém nunca ouviu. A certeza de que seria morta ali, naquele lugar, na frente do meu filho que, com muita sorte sobreviveria, apesar das ameaças. Quatro horas. Finalmente estou no hospital, a única evidência física é um raio-x do meu nariz. Em mim, todas as cicatrizes que jamais seriam curadas. Dormir no quarto do meu irmão por mais de um mês, não conseguir ficar em casa sozinha, receber ligações constantes para saber se está tudo bem. E trabalhar. E estudar. E ser mãe.

Ler, ler sem parar. Não levantar mais a cabeça, só falar sobre amenidades, sumir dentro de si. Ser invisível. Seguir em frente, sem sair do lugar. Só passar os dias, sobreviver a mais um. Menos um. Quanto tempo se passou? 5 anos? 6? 2.190 dias, talvez um pouco mais, talvez um pouco menos. O espelho não existia mais. Acordar, tomar banho, sair pra faculdade, ir trabalhar. Sorrir porque é hora, fazer cara séria para se concentrar numa reunião, pedir um suco como de costume no almoço. Sair com as amigas no final de semana para que elas possam ver meu filho, afinal, acompanharam a gravidez inteira, participaram de tudo que podiam, viraram tias babonas. Olhavam pra mim, se preocupavam, mas não forçavam. Me mantinham ali. Mais importante: nunca desistiram de mim. Hoje eu sei disso, na época nem me dava conta. Sofri novas ameaças, tomei decisões precipitadas. Li. Li mais e mais. Eu precisava de um lugar para falar desses livros que eu tava lendo sem parar, precisava falar com alguém sobre eles. Um blog era uma ótima ideia. E foi o diário da minha vida ficcional por todo esse tempo. A vida nos livros estava ótima e meu assunto na internet era esse, então estava tudo certo, Aqui eu era a Ceile que queria ser. A louca por livros. Apaixonada. A que podia admitir que os livros eram a distração do que havia dentro.

Passando de 2014 para 2015, eu sabia que minha vida mudaria radicalmente. Era hora de acordar. Era hora de superar. Fiz planos, estava ansiosa pelas mudanças, confiante de que passaria por todas as dificuldades. E minha vida mudou radicalmente, de uma forma que eu nunca poderia esperar, mas, diferente do que eu planejara, continuava no mesmo lugar. Se eu tivesse saído, a mudança não seria tão grande. Voltei a ter espelho. O cabelo foi solto. Tive que comprar um novo rímel, porque os que eu tinha, haviam secado pelos anos sem uso. Emagreci sem dieta nem estar doente. Chuto que tenha perdido mais de 15 quilos, mas não sei dizer com precisão, porque eu jamais subi em uma balança nos últimos 5 anos. Todo mundo notou. Eu sorria, porque eu tinha vontade de sorrir e não conseguia ser diferente. Eu olhava para as pessoas. Eu conversava. Meu filho crescia tão rápido! Já estava escrevendo e meu último registro era de quando ele ainda mal sabia escrever o próprio nome.

Os livros? Não conseguia lê-los. O blog foi ficando sem atualização, porque eu não tinha mais inspiração para escrever, não conseguia ler histórias da ficção com a mesma atenção e assim não tinha material para postar. Eu só conseguia olhar para a vida real. De repente, eu tinha esperança de alguma coisa. Eu acreditava no futuro. Acredito. Deixo esse assunto específico para outro post, mas eu passei por uma transformação e tanto. Até a dor era bem vinda, era um lembrete que eu estava viva. Antes eu não sentia nada. Assim, eu passei a gostar de outras coisas. Arrumar meu quarto era uma delícia, lavar roupa e sentir o cheirinho de amaciante enquanto estendia no varal era delicioso. As pequenas coisas ganharam outro brilho. Eu me sentia brilhar. Gente, eu uso biquíni na praia! Não por conta do peso perdido, porque não sou satisfeita com meu corpo, mas uso porque não suporto usar maiô e a marca que fica, então não tenho vergonha do que os outros vão ver, não gosto mesmo é do que eu vou ver quando olhar no espelho e ver aquela barriga branca e as costas queimada com um círculo horrível. Estar com meu filho, sair com as minhas amigas e passar horas no sofá da casa de uma delas era maravilhoso, ir nos almoços da minha família e ver o quanto os filhos dos meus primos cresciam era ótimo. Eu queria escrever, mas nada saía. Quando conseguia alguma coisa, era bem distante do que eu escrevia antes, parecia não ter a mesma naturalidade, a graça tava perdida. Tava faltando paixão. Eu vinha pra cá para fugir de mim mesma, mas e como faço agora que eu quero me viver?  

Amo o blog e continuo amando os livros, me cobro menos nas leituras - que delícia quando peguei um livro aleatório na estante que estava lá há mais de três anos e li sem preocupação. E quando isso se tornou normal. Quero voltar a atualizar bastante aqui, mas agora como a Ceile toda, a que ama ler, mas também ama ser mãe, ama cozinhar (comer muito também!) e arrumar a casa. A que ama ouvir 15851233 covers da mesma música, a que gosta de cuidar do cabelo e passar três quilos de rímel. A que ama servir a Deus e encontrou em Jesus Cristo o melhor que amigo que poderia ter. Vocês me dão licença para isso? Posso escrever aqui sem o risco da minha mãe mexer nas minhas coisas? Vocês podem me ajudar sugerindo temas? O blog não é só o blog. Eu uso muito o snapgram para fazer unboxing, falar das minhas leituras. Ainda não achei um jeito de voltar para o twitter de verdade, mas não me abandonem se acharem estranha esta "nova" Ceile. Mentira, adoraria que permanecessem, mas fiquem à vontade se não se interessarem mais pelos meus assuntos, ok? Só quero ser livre aqui onde, por tanto tempo, foi meu refúgio. Passei por tantas coisas e agora me sinto à vontade de falar, então também quero que vocês se sintam assim para compartilhar suas coisas. 

Para quem não consegue falar de si, até que deu um textão, né? Pois é, até aqui já me vejo terminando este post diferente do que comecei. Revivi algumas coisas enquanto escrevia, coisas que ainda não foram apagadas, mas já não me definem mais. Consegui escrever sem derramar uma lágrima sequer, quem diria? É, é possível sobreviver e continuar. A luz do final do túnel existe sim, demorei para enxergar, mas hoje estou aqui falando que a escuridão passa. Tudo passa.