Jogos Macabros - R. L. Stine

Vocês podem observar que tenho levado a vontade de ler "livros que dão medinho" a sério, né? Essa foi mais uma tentativa, mas que, infelizmente, não correspondeu às expectativas. 

A Família Fear é cercada de mistérios e todos em Shadyside conhecem diversas histórias envolvendo o clã. Brendan Fear parece diferente: o gênio da escola, vive jogando World Warcraft com seus amigos e também cria seus próprios jogos. Do outro lado está Rachel Martin, uma adolescente certinha que estuda de manhã e trabalha de garçonete à tarde. Ela nutre uma paixão platônica por Brendan e ele parece finalmente notá-la: inesperadamente, a convida para sua festa de aniversário no casarão de veraneio da família, que fica na isolada Ilha do Medo. Apesar dos avisos da melhor amiga e do ex-namorado, Rachel está decidida a comparecer à festa, mas nem imagina que tipo de jogo planejaram para tornar o evento inesquecível. 

A premissa do livro é bem instigante e toda a condução até a fatídica desta mantém o ritmo de mistério e expectativa. Toda a construção do ambiente é feita na primeira e segunda parte, mas aí quando a festa finalmente chega, o nível simplesmente despenca. O autor abusa dos clichês e esterótipos para conduzir seu enredo e a sensação foi de assistir aqueles filmes de terror adolescente bem besteirol. A mocinha, que é a narradora, tem atitudes muito estúpidas e é impossível não se irritar com ela. Sabe aquela personagem que faz questão de escolher a opção mais idiota e óbvia na hora do medo? O grupo está em uma ilha isolada, sem celular, pessoas a quem pedir ajuda, sem barco e com um assassino à espreita. Eles, claro, decidem não se separar. Mas no primeiro susto, lá está Rachel correndo SOZINHA para dentro da casa, entrando em um quarto que - assim como os demais cômodos - está sem luz. Se a casa é mal-assombrada, por que alguém se esconderia lá dentro?

"De repente, eu me senti uma completa idiota.Talvez tudo fosse um jogo com Brendan. Quando ele me convidou para a festa... quando me escolheu para ser sua parceira na caçada aos objetos... quando me abraçou e beijou... Tudo um jogo? Tudo uma piada para ele?"

Aí me senti subestimada pelo autor. Sei da ampla experiência dele, e sei também que ele não escrevia sobre a série há vinte anos... e nesse tempo, muita coisa mudou, o leitor mudou, certo? Mas a impressão é que o autor parou no tempo e construiu seu "novo" livro nos "velhos" moldes. É notável que ele tem técnica: os personagens são apresentados na ordem certa, os capítulos terminam de forma motivadora para o leitor continuar lendo, as descrições são bem feitas deixando tudo muito visual, as pontas são bem amarradas, entre outras coisas, mas vi muita técnica e pouca sensibilidade.

O desenrolar é muito improvável mesmo dentro daquele cenário, os personagens são rasos, então não consegui criar empatia e me sensibilizar com os acontecimentos. Além disso, o autor fica sempre contando algo e, em seguida, volta atrás. No início, isso dá um alívio, mas depois tira a emoção, porque os fatos vão perdendo a credibilidade. Isso sem contar na tentativa de romance num momento totalmente inoportuno, improvável e incoerente. Desta vez, não culpo o momento, o público-alvo nem a tradução: R. L. Stine realmente errou a mão em Jogos Macabros.

Não acompanhei a série mais famosa do autor - Goosebumps -, mas assisti ao filme com meu filho e a atmosfera é a mesma: uma tentativa de terror/suspense, mas sem o compromisso de colocar medo, ficando quase cômico. Apesar de tudo isso, se tiver oportunidade, lerei outras obras do autor, porque acredito que ele faça melhor que isso, considerando o sucesso que faz, mesmo agora, 20 anos depois (a título de curiosidade: este seria o volume 52 da série). 

P.S. Ele também é autor de É o primeiro dia de aula... sempre! e tem resenha aqui no blog. 

Mini-opiniões: O Adulto - Gillian Flynn

Uma jovem ganha a vida praticando pequenas fraudes. Seu principal talento é a capacidade de dizer às pessoas exatamente o que elas querem ouvir, e sua mais recente ocupação consiste em se passar por vidente, oferecendo o serviço de leitura de aura para donas de casa ricas e tristes.
Certo dia, ela atende Susan Burkes, que se mudou há pouco tempo para a cidade com o marido, o filho pequeno e o enteado adolescente. Experiente observadora do comportamento humano, a falsa sensitiva logo enxerga em Susan uma mulher desesperada por injetar um pouco de emoção em sua vida monótona e planeja tirar vantagem da situação.
No entanto, quando visita a impressionante mansão dos Burke, que Susan acredita ser a causa de seus problemas, e se depara com acontecimentos aterrorizantes, a jovem se convence de que há algo tenebroso à espreita. Agora, ela precisa descobrir onde o mal se esconde, e como escapar dele. Se é que há alguma chance.
Minha leitura de Lugares Escuros não rendeu como eu esperava, mas ainda quero retomá-la, era só questão de momento mesmo. Com o lançamento deste conto, aproveitei para ter outra experiência - desta vez mais rápida - com a autora Gillian Flynn. Aqui, lendo a obra completa, pude ver como esta mulher realmente tem o dom para brincar com o psicológico do leitor e nos levar a caminhos inimagináveis. Sua protagonista aqui não é uma mocinha em perigo, mas alguém genuinamente trapaceiro, com facilidade para manipular e altamente gananciosa. Pela minha pequena experiência com a autora, uma típica protagonista dela, né?

É incrível como em pouquíssimas páginas ela consegue construir um ambiente verossímil, visual e sensível. Chegou a dar certo medinho e me trouxe a sensação de quando assisti O grito. O final foi à altura - inesperado e a mulher me fez de trouxa, óbvio. Gillian, isso é um jogo comigo, garota? A maioria dos contos que leio termina de forma aberta e isso pode ser ótimo por nos dar liberdade para imaginar o futuro a partir daquele ponto, mas pode ser péssimo justamente por tal liberdade. Qual a verdade, afinal? A curiosidade corrói e terminei O adulto com enormes pontos de interrogação, surpresa pelos acontecimentos e tentando digerir melhor a história. É inegável que a autora tem o dom para mexer com o psicológico do leitor.

Gostei? Não sei, mas esse conto foi uma pequena amostra do que me aguarda nos outros livros da autora e me deu mais ânimo ainda. Simplesmente não dá pra ignorar o talento da autora. Não se espante se no futuro eu fizer parte de algum fã-clube da autora, ok? Este conto foi escrito para uma antologia organizada por George R. R. Martin (O Príncipe de Westeros e outras Histórias).

Dias Perfeitos - Raphael Montes

Ainda da série "em busca de livros que dão medinho", peguei Dias Perfeitos, livro que tenho há dois anos na minha estante, já tinha ouvido muito sobre, mas ainda teimava em deixá-lo sem ler. Num impulso, decidi lê-lo e daí foi difícil largar (veja bem, eu terminei dentro da Bienal).

Téo é um jovem introvertido, estudante de medicina e sua melhor amiga é Gertrudes, uma senhora presente nas aulas de anatomia - estar morta e ser apenas um corpo para estudo não é um problema para ele. Ele mora com a mãe em um apartamento no Rio e essas são as pessoas com quem se relaciona diariamente. Durante um churrasco onde foi acompanhar a mãe, ele conhece a extrovertida Clarice, a moça de humanas. Um pequeno diálogo e, pronto, Téo está apaixonado por ela e precisa encontrá-la novamente. Inicia-se assim, o momento stalker da vida real e diante das negativas de Clarice, ele é obrigado a sequestrá-la. Mas tudo em nome do amor. Ele é um bom cara para ela, só precisa de espaço para mostrar e a convivência é ideal para que ela o conheça e sentimento se torne recíproco. Pelo menos é assim que ele pensa.

Eu li o livro um pouco atrasada, depois de ver inúmeras pessoas impressionadas com a grandiosidade da obra, amigos meus falando que o cara é genial entre outros elogios. O que isso faz com a expectativa? Explode. E, no meu caso, me fez ler com a razão aflorada, atenta para todos os passos e escolhas do autor. Exatamente pelo senso crítico no nível máximo, terminei a leitura ponderando muitos aspectos que me deixaram em dúvida se amei ou se me decepcionei. Um desenvolvimento tão preciso e cruel me fizeram esperar um final à altura, com todas as pontas amarradas em um nó imbatível. Acontece que o final foi surpreendente e talvez isso confunda na hora de avaliar. Ok, foi imprevisível, mas foi satisfatório, foi realmente bom ou o brilho da surpresa cegou? O livro tem inúmeros pontos positivos, mas sabe quando falta o gran finale para o veredito de que o autor é realmente genial? Vou tentar expressar de forma separada, fingindo que ainda não terminei e estou absolutamente impressionada com as atrocidades de Téo.

"Lentamente, Clarice se abria para ele, gostava dele. Era natural: ela não tinha mais ninguém. Ele a alimentava, dava carinho e atenção. O mínimo que podia esperar em troca era aquele afeto sutil, que logo ganharia vigor - ele tinha certeza. No fim das contas, mesmo mulheres feministas e alternativas se rendem a um homem de verdade."

A naturalidade com que é narrado todo o desenrolar da trama é perturbadora. A obra é contada em terceira pessoa e o narrador é totalmente impessoal, sem deixar transparecer o mínimo de julgamento para as atitudes e pensamentos do protagonista, portanto cabe ao leitor formar o pensamento e perceber o quanto aquilo é doentio. A frieza de Téo me assustava e, para piorar ainda mais a situação, ele pensa estar certo, sem a consciência da própria crueldade. Controverso a tudo isso, há certos escrúpulos presentes em sua personalidade e é interessante como até isso é usado para que ele não pareça uma pessoa má como um psicopata pré-disposto a crueldades em série. Ele só fez aquilo por Clarice, mas a respeita (dentro da cabeça dele) e tudo é em prol de um bem maior. O machismo é intrínseco à sua personalidade, como um princípio, uma tradição e leves pinceladas numa cena ou outra nos mostra mais esta faceta do personagem. Tudo isso me enjoou de uma forma que não sei mensurar, mas nada, absolutamente nada me preparou para o que eu presenciaria capítulo 24, onde foi o ápice da minha repulsa e eu parei de ler, totalmente tentada a abandonar o livro. 

É muito claro: o livro é ótimo, tem técnica, afeta as emoções do leitor, mexe com os sentidos, mas os acontecimentos são péssimos, a história é pesada ao mesmo tempo que fascinante, porque é impossível parar e ficar alheio aos eventos descritos. Tudo vai se encaixando e piorando e a falta de discernimento do protagonista é aterrorizante. Não dá para pensar num desfecho suficiente - suficientemente punitivo, suficientemente vingativo, suficientemente corretivo. Mas eu esperava ao menos um final atado, que unisse todas as coisas a que somos apresentados durante a narrativa. Sem contar que ainda achei corrido. Olha só, eu até acho que o livro poderia ter aquele final, mas desde que antes, houvesse um desfecho digno para algumas coisas à altura de todo o desenvolvimento. 

Raphael Montes já entrou para minha lista de autores que vou sempre ler, quero encontrar com ele ainda em O Vilarejo e Suicidas, e indico que entre nas suas leituras também. O final deste livro é altamente discutível, é até corajoso da parte dele, mas achei uma saída fácil diante da grandiosidade de toda a trama. Uma única coisa foi incoerente pra mim e tamanha conveniência me pareceu deslize do autor (a chave das algemas, milagrosamente, ao alcance do refém torturado e a possibilidade ainda de conseguir pegá-la e abrir as algemas - foi difícil visualizar essa cena na minha cabeça, ela parecia inverossímil diante do cenário). Enfim, apenas uma observação diante do todo + a decepção com o encarramento. Há muitos detalhes que enchem a trama e a deixam possível, como a forma que se desenrola o cárcere fantasiado de road-trip, mas prefiro não comentar para não estragar para quem ainda não leu a forma como as coisas se encaixam. Assim como a personalidade de Clarice e suas reações. 

Aqueles que conseguirem encarar a leitura, com certeza ficarão impressionados com o talento inegável do autor e ficarão marcados pela história, assim como eu fiquei. Amando ou odiando, é impossível ser indiferente a Dias Perfeitos.

P.S. Aqui no blog tem outra resenha de Dias Perfeitos, escrita pela Pamela. Clique aqui para ler.

Mini-opiniões: A garota do calendário: Janeiro - Audrey Carlan


Mia Saunders precisa de dinheiro. Muito dinheiro. Ela tem um ano para pagar o agiota que está ameaçando a vida de seu pai por causa de uma dívida de jogo. Um milhão de dólares, para ser mais exato. A missão de Mia é simples: trabalhar como acompanhante de luxo na empresa de sua tia e pagar mensalmente a dívida. Um mês em uma nova cidade com um homem rico, com quem ela não precisa transar se não quiser? Dinheiro fácil. Parte do plano é manter o seu coração selado e os olhos na recompensa. Ao menos era assim que deveria ser... Em janeiro, Mia vai conhecer Wes, um roteirista de Malibu que vai deixá-la em êxtase. Com seus olhos verdes e físico de surfista, Wes promete a ela noites de sexo inesquecível — desde que ela não se apaixone por ele. Sinopse retirada do Skoob.

Eu já tinha adorado a ideia geral de A garota do calendário, mas preferi esperar um pouco as opiniões de outros blogueiros que acompanho. Em uma promoção, resolvi comprar só o primeiro e, se eu gostasse, compraria os demais livros. Adorei A garota do calendário pelos mesmos motivos que gosto de outros do gênero: escrita fluída, rápida e fácil de acompanhar, cara sedutor e apaixonante, romance de tirar o fôlego. Apesar de pequeno, o livro consegue desenvolver muito bem seus personagens e expor as situações sem parecer corrido ou muito superficial. Claro que não há aquela profundidade nos dramas pessoais, mas o nível é confortável para acompanhar a leitura e não fazer muitos questionamentos. Mia é um misto de dona de si com certa insegurança e inocência, mas não exagera para ficar provando ser uma coisa ou outra. Já Wes é apaixonante à sua maneira, apesar da resignação de não se apaixonar, ele se permite viver, como se não ficasse controlando demais os sentimentos. 

A única inovação - não necessariamente positiva - que consigo destacar é o formato: como pequenos contos mensais, mas que poderiam ser lançados como trimestres, sinceramente. Renderiam quatro livros com três meses cada e o risco de alguém abandonar no segundo ou terceiro seria menor. Esta é uma leitura para uma ou duas horas, que conta o necessário e tem o mesmo efeito de um livro do mesmo estilo de 350 páginas. Até acho que alguns eróticos poderiam ser sintetizados dessa forma. Meu único problema em acompanhar a série é conseguir encarar mais 11 caras diferentes e acompanhar o envolvimento deles com a protagonista depois de se apaixonar pelo primeiro personagem. O apego neste sentido não muda conforme o tempo, pra vocês verem. Mas vou acompanhar as promoções para completar a coleção e ver como tudo isso termina. 

Se eu indico? Sim! Se você gosta de uma leitura intensa, mas rápida e despretensiosa para curar aquela ressaca literária, pode apostar em A garota do calendário. 

A geografia de nós dois - Jennifer E. Smith

"Lucy mora no vigésimo quarto andar. Owen, no subsolo... E é a meio caminho que ambos se encontram - presos em um elevador, entre dois pisos de um prédio de luxo em Nova York. A cidade está às escuras graças a um blecaute. E entre sorvetes derretidos, caos no trânsito, estrelas e confissões, eles descobrem muitas coisas em comum. Mas logo a geografia os separa. E somos convidados a refletir... Onde mora o amor? E pode esse sentimento resistir à distância? Em A Geografia de Nós Dois, Jennifer E. Smith cria tramas cheias de experiências, filosofia e verdade." Sinopse retirada do Skoob.

Jennifer E. Smith ficou conhecida com seu romance fofinho, de nome enorme e para ler em um dia A probabilidade estatística do amor à primeira vista. Logo depois, veio Ser feliz é assim, um romance um pouco mais elaborado e extenso. Já li os dois e gostei, então quando vi A geografia de nós dois, a mão chega tremeu para comprar, mas consegui segurar um pouquinho até que eu realmente pudesse lê-lo. Aí eu acabei encontrando basicamente a mesma coisa do primeiro livro, tirando o nome enorme.

É quase impossível não fazer uma comparação com o A probabilidade..., já que eles possuem uma estrutura de enredo muito parecida - dois adolescentes de conhecem numa situação inusitada, sem os pais, ambos vêm enfrentando problemas/mudanças familiares, cada um tem um destino e uma situação a encarar, e, ao invés do tempo limitado, temos o espaço amplo demais (ou seja, trocam-se horas por quilômetros). Não conseguiria escolher o favorito dentre os dois, acho que quem gostou muito de um, vai adorar o outro, assim como aconteceu comigo, mas em menor escala. Acho os livros bons, bonitinhos, para passar o tempo, mas só.

Mas não existe começo que seja totalmente novo. Toda novidade chega no encalço de algo velho, e todo início vem à custa de um fim.

Apesar do romance iminente, a autora aborda certos dramas familiares, coisas que os personagens estão vivendo e são determinantes para seu futuro. Os pais de Lucy são muito ausentes e ela não faz uma queixa clara disso, mas gera incômodo no leitor - veja bem, eles estão em outro continente enquanto a filha de 16 anos está sozinha em Nova York. Seria um sonho adolescente? Talvez, mas não para Lucy, uma garota que gosta das coisas simples e não é de rebeldia. Ela também tem irmãos gêmeos que, apesar de serem muito importantes para ela, não estão presentes, pois foram fazer faculdade em outro estado. Ou seja, a garota está abandonada, mas finge costume, sabe? Já Owen está sofrendo duplamente: a morte da mãe e o luto do seu pai. Consigo imaginar uma imagem muito clara do Patrick, pai dele, e foi o que me deixou mais triste na história. Ele está perdido sem a mulher, mas ainda tem o filho adolescente que não deveria ser afetado pela sua falta de rumo, mas, inevitavelmente, é. 

Adorei a forma realista que Jennifer conduziu o romance, não houve uma idealização dos protagonistas, nem da situação vivida por eles. Há uma sincronia mesmo quando eles se encontram beeeeem distantes, há certos códigos cheios de significados - uma frase, um objeto. O livro é todo narrado em terceira pessoa, mas há uma alternância de foco, ora em Lucy, ora em Owen. Isso ampliou a visão do leitor, que pode conferir os rumos que cada um toma quando separados. Se você é de ficar marcando quotes, pode separar as tags que tem umas coisas bem lindinhas.  

Às vezes tinha a impressão de que sua vida inteira era um exercício de espera; não exatamente para ir embora, mas para ir, simples assim. Sentia-se um daqueles peixes que tinham o potencial de crescer de maneira inimaginável, bastava o tanque ser grande o bastante. Mas seu tanque sempre fora pequeno demais e, por mais que amasse sua casa - por mais que amasse a família -, sempre se sentira batendo a cabeça nos limites da própria vida.

Enfim, o livro não é surpreendente nem profundo, com certeza eu gostaria de ler a mesma história com um final mais preciso, um drama mais trabalhado e resolvido, entre outras coisas, mas tudo é na medida para as poucas páginas e para o público jovem. Uma leitura despretensiosa, mas fofa, para intercalar com leituras mais densas.   

Temporada de acidentes - Moïra Fowley-Doyle

"Guardem as facas, protejam as quinas dos móveis, não mexam com fogo.
A temporada de acidentes vai começar.
Acontece todo ano, na mesma época. Todo mês de outubro, inexplicavelmente, Cara e sua família se tornam vulneráveis a acidentes. Algumas vezes, são apenas cortes e arranhões. Em outras, acontecem coisas horríveis, como quando o pai e o tio dela morreram. A temporada de acidentes é um medo e uma obsessão. Faz parte da vida de Cara desde que ela se entende por gente. E esta promete ser uma das piores.
No meio de tudo, ainda há segredos de família e verdades dolorosas, que Cara está prestes a descobrir. Neste outubro, ela vai se apaixonar perdidamente e mergulhar fundo na origem sombria da temporada de acidentes. Por que, afinal, sua família foi amaldiçoada? E por que não conseguem se livrar desse mal?
Uma narrativa sombria, melancólica e intensa sobre uma família que precisa lidar com seus segredos e medos antes que eles a destruam." Sinopse retirada do Skoob.

Tenho uma tendência muito grande a escolher livros com temáticas românticas e, querendo mudar um pouco, decidi buscar livros "que dão medinho" e Temporada de Acidentes entrou rapidinho na lista. A premissa bastante simples me chamou atenção - uma família enfrenta uma temporada de acidentes todos os anos. Neste período, eles estão mais propensos à batidas, cortes, quedas e até morte, veja bem. Qual a explicação para isso? Apesar da premissa parecer simples como descrevi, paralelamente à temporada, outros acontecimentos vão dando fôlego extra para o livro e o mistério envolvendo uma antiga amiga da protagonista Cara acaba ganhando maior destaque.

O núcleo do livro é formado por um grupo de adolescentes: Cara, a protagonista, sua irmã Alice, seu irmão postiço Sam e a melhor amiga, Bea. Cara tem uma visão diferente das coisas, as enxerga com certa fantasia, mas ela só tem isso e não vi uma explicação ou utilidade para tal característica, e isso é uma das coisas que achei desnecessário adicionar em um livro tão pequeno (250 páginas) se não havia espaço para desenvolver, diferente da excêntrica Bea, que tem o misticismo "incorporado" à sua personalidade de forma que acrescentou à formação da personagem, deu um toque diferente, mas natural. Alice é a mais velha e parece fazer o tipo "não tenho paciência para quem tá começando", mas tem seus motivos para isso e é levemente enigmática. Já Sam parece um garoto normal, mas também carrega seus próprios traumas.

"Todos nós nos tornamos especialistas em esconder as coisas dos outros. Todos nós nos tornamos especialistas demais em esconder segredos dos amigos."

Apesar do livro conter vários elementos para compor uma boa trama, achei que faltou liga entre tais coisas. Como a autora optou por trazer mais de uma "revelação" para o final, achei que não ficou bem dividido e fatos importantes e fortes tiveram que dividir o mesmo momento - o que diminuiu o impacto deles. Foi tudo assim de uma vez e eu fiquei meio perdida, sem saber no que prestar mais atenção. Até agora não consegui avaliar muito bem o livro, não tive motivos para amar, mas também não achei nada que o tornasse ruim. Ele foi indiferente, sei que muitas pessoas podem gostar, mas outras podem ter a mesma sensação que eu. Acredito que, se a autora abrisse mão de alguns assuntos que não tem grande relevância e estão ali só para enfeitar o enredo, sobraria mais espaço para desenvolver os mistérios dos personagens secundários e, assim tornaria o livro mais atrativo e empolgante. O clima, ambiente, os personagens e a atmosfera do livro no geral me remeteram a Mentirosos, outro livro que também fiquei sem saber se foi bom ou não. Só para deixar claro se você já leu: não tem nada a ver com o gran finale de Mentirosos, apenas essas coisas que falei, ok? Então se você gostou, acredito que Temporada de Acidentes também te agrade.

"Acho que minha família toda é assim: evitamos falar das coisas sobre as quais não podemos falar e cobrimos cada superfície para nos proteger do momento inevitável em que tudo virá à tona."

Uma coisa que "estraga" minhas leituras desse tipo é sempre a expectativa. Acontece que: um dia, li A lista do nunca e foi uma leitura muito intensa, alucinante e tensa, e sempre pego um livro do mesmo estilo esperando ter a mesma reação - ou algo próximo. Eu quero conspirar, desconfiar, caçar pistas, ficar com medo de ir à cozinha, essas coisas, mas infelizmente, essa sensação não me acompanhou nesta leitura. E ainda sigo na busca.

Mini-opiniões: P.S. Ainda amo você - Jenny Han


Se eu já tinha gostado de Para todos os garotos que já amei, com este aqui não foi diferente. Eu poderia escrever uma resenha completa sobre ele? Sim, mas ficaria repetitivo, pois as mesmas características que notei no primeiro livro, também estão presentes aqui, só muda o desenvolvimento do enredo. Isso levanta um questionamento: era realmente necessário escrever um segundo livro? Sinceramente, não. Apesar de adorar prolongar meu tempo na cabeça de Lara Jean, era totalmente possível sintetizar os dois livros em um, porque ler essa segunda parte só me fez ficar em agonia com medo da autora desfazer o final anterior, o que me fez ir atrás de spoilers para conseguir ler em paz. Se eu consegui, já não posso falar. 

A autora conseguiu manter o tom de fofurice, os relacionamentos familiares e dramas adolescentes na medida certa, e, com essa fórmula clichê, traz de volta aquela leitura confortável que não sabemos explicar muito bem o por quê, mas que encanta. Muitos YAs querem ser surpreendentes, diferentões e aqui temos uma trama simples, sem grandes plot twists ou sem um turning point e é sucesso entre os leitores - parece que o jogo virou, não é mesmo? Continuo indicando a leitura. Vai sair o terceiro livro e lá estarei eu, de novo, morrendo de ansiedade e de medo, mas estarei com ele firme nas mãos.

Tenho uma curiosidade imensa sobre o Peter. Juro que não iria reclamar de ler um livro sob o ponto de vista dele. Margot é outra pessoa misteriosa pra mim. Queria um livro da Kitty também, do Josh. Até da Genevieve. Poxa, todos os personagens! Já quero o romance do pai das irmãs Song, inclusive.

Indico muito a leitura da resenha de Para todos os garotos que já amei, ok? Ok.

O amor nos tempos do ouro - Marina Carvalho


"Sabes que nunca me apaixonei, maman, mas se porventura o tivesse feito, seria por alguém como ele?"
Cécile Lavigne perdeu todos os que amava e agora está sozinha no mundo. Ela, uma franco-portuguesa que ainda não completou vinte anos, está sendo trazida ao Brasil pelo único parente que lhe restou, o ambicioso tio Euzébio, para casar-se com o mais poderoso dono de terras de Minas Gerais, homem por quem Cécile sente profundo desprezo. Após desembarcar no Rio de Janeiro, Cécile ainda precisará fazer mais uma difícil viagem. O trajeto até Minas Gerais lhe reserva provações e surpresas que ela jamais imaginaria. O explorador Fernão, contratado por seu futuro marido para guiá-la na jornada, despertará nela sentimentos contraditórios de repulsa e de desejo. Antes de enfim consolidar o temido casamento, Cécile descobrirá todos os encantos e perigos que existem nessa nova terra, assim como os que habitam o coração de todos nós. Com o passar dos dias, crescerá dentro dela a coragem para confrontar todas as imposições da sociedade e também o seu próprio destino. Sinopse retirada do Skoob.

Marina Carvalho já é um nome conhecido na blogosfera desde o lançamento de Simplesmente Ana pela Novo Conceito. O livro fez sucesso por todo o conjunto: capa linda, ações de marketing, enredo chamativo e uma escrita fluída fácil de acompanhar. Foi o primeiro livro da Marina que li e, no geral, achei o livro bom, pendendo para o regular. Deixe-me explicar: à primeira vista, numa leitura despretensiosa, a história era ok, mas parando para pensar no assunto, eram inúmeras as falhas e pontos a melhorar. Em seguida, veio Azul da cor do mar, que ainda não li; depois De repente Ana, o que conseguiu ser regular e, logo após, Elena, livro que acabei abandonando (temporariamente) por volta da página 100. Entre essas leituras teve também Ela é uma fera. Marina Carvalho era um nome riscado da minha lista de autores para acompanhar. Até chegar O amor nos tempos do ouro em casa. Bastou ler a primeira página para entrar numa leitura frenética ao mesmo tempo em que dosada, para saborear por mais tempo e ler com mais atenção aquela história deslumbrante. Surpresa e encantamento definem esta leitura.


Quando falo que o livro é ótimo, não é só em comparação às demais obras da autora. Ele se destaca entre elas, sim, mas se destaca dentre todas as minhas últimas leituras. Além de ter ganhado meu coração, a obra é de qualidade inquestionável - é visível o cuidado da autora em retratar com fidelidade e certa licença poética o clima e meio sociais da época. Acredito que a experiência da autora como professora a tenha ajudado muito na hora de inserir informações históricas de forma didática e totalmente incorporada na trama. Além disso, a construção do romance também chama bastante a atenção, me deixando até dividida na hora de escolher meu ponto favorito. Foi uma mistura muito harmoniosa: o enredo é interessante, o desenvolvimento é absolutamente fascinante, a ambientação verossímil e rica. Sem dúvidas, o livro virou favorito.

Cécile é uma protagonista forte e determinada, de uma sensibilidade ímpar e um senso de humanidade raro na época - a forma como ela enxerga os escravos vai totalmente contra o que muitos  (infelizmente) praticavam e pregavam. É doloroso ler certas partes onde são descritas as atrocidades que eles sofriam, assim como a submissão imposta às mulheres (e aí você vê o quanto o feminismo foi e é importante: de onde saímos, onde estamos, para onde temos que ir). Fernão não é bem um mocinho, mas é um personagem representado de forma bem humana: com defeitos e qualidades, com passado e um jeito que conquista. Uma personagem me chamou atenção e, no finalzinho da história, vi que tinha uma nova história em potencial ali - e está confirmado! Mal posso esperar, sério. 

A narrativa é, na maior parte do tempo, em terceira pessoa, mas, eventualmente, surgem páginas do diário da Cécile e cartas de Fernão. No início de cada capítulo, há trechos de outras obras históricas., o que me rendeu algumas marcações a mais. Minha única crítica ao livro, é sobre as notas. Alguns termos usados precisam de certas explicações, mas elas são numeradas e listadas ao final da obra. É cansativo parar a leitura para ver o significado lá no final e então depois voltar. Notas no rodapé funcionariam melhor (confesso que, se eu não estivesse tão envolvida, passaria direto por estas observações, perdendo "parte" da leitura, mas li cada nota, então imaginem).

Ler O amor nos tempos do ouro foi como fazer uma viagem no tempo, quase ter uma aula de história em campo, ser arrebatada por um romance apaixonante e ainda ser surpreendida com a elegante escrita da autora.