Corações Feridos - Louisa Reid

"― Você nunca será nada além de um monstro, uma aberração."

Tentei escrever esta resenha de diversas formas, mas em todas achei que fui mal sucedida. Espero que tenha acertado agora, pois a leitura deste livro foi profunda, dramática e, sem dúvida, muito marcante. O que dificulta na hora de escolher as palavras, afinal tenho tanta coisa para dizer que posso acabar nem dizendo nada, ou não fazendo sentido... Mas vamos continuar. Perdoem-me se ficar um pouco longa, mas o livro ultrapassou minhas expectativas e é minha melhor leitura do ano.

O livro é narrado sob dois pontos de vistas: o passado por Hephzibah (anterior à sua morte) e o presente por Rebecca (após a morte de Hephzi). As irmãs gêmeas guardavam um terrível segredo e, por tentar se libertar disso, Hephzi perdera sua vida. Rebecca, a irmã que possui o rosto mal formado pela síndrome Treacher Collins, se vê sozinha e desamparada, além de carregar o fardo de seu secreto sofrimento. As jovens eram filhas de Maria e Roderick, um religioso fanático (e de quebra, líder da congregação) que vivia de aparências. Para a comunidade e membros da igreja, tinha a família perfeita, mas somente a esposa e as filhas sabiam de sua verdadeira natureza.

Os pais não permitiam que as jovens frequentassem a escola, mas após certo revés, o pai cede apenas para mostrar a elas que não são capazes de aprender e/ou acompanhar os demais alunos. Ou seja, o cretino as menospreza e subestima a inteligência de ambas. A mãe, submissa ao marido, é omissa em 99% dos casos e jamais as defende. Não podem ler ou cantar. Muito menos namorar. Sorrir é um pecado mortal. Suas vidas resumem-se em ir à igreja e exercer os serviços de casa. Não vão às compras e aos 17 anos nem ao menos lembram o sabor de um delicioso chocolate quente. E, acreditem, citei apenas a ponta do iceberg.

Hephzibah, a irmã “normal”, era linda, carismática e conquistava a todos facilmente. Sabia dar certas voltas nos pais e conseguia realizar algumas proezas. Porém, suas beleza e esperteza a tornava uma irmã hora arrogante demais, hora relapsa e egoísta. Mas no geral tinha um bom coração e seu lado ruim dava-se às terríveis cicatrizes que ganhara física e emocionalmente ao longo dos anos. E então, tivera um triste fim.

Hephzi:

"O dia se arrastou. (...) Eu me sentia cansada e fraca e não conseguia mais falar. (...) Quando a noite chegou novamente, uma sombra pairou sobre minha cama. Meu pai. Tentei alcançá-lo com a mão, olhá-lo no rosto e pedir socorro. Ele se virou e me deixou lá."

Rebecca era o oposto da irmã. Introvertida, tímida, mas mais racional. Talvez tenha sofrido um pouco mais devido a sua deformação, mas isso era o de menos se comparado aos horrores que vivia dentro de casa. Apesar de ter sido muitas vezes ignorada pela irmã, sempre a ajudava e encobria suas trapalhadas.

Rebecca:

"Gravei o dia de hoje em minha memória como mais um dia negro, e está lá, uma dura história inscrita em meu coração. As histórias que tenho escondidas dentro de mim; se você pudesse abrir-me, leria a verdade. Olhe para dentro, retire a pele, a carne e os ossos e encontrará uma biblioteca de sofrimentos."

Corações Feridos representou para mim um diário, no qual as irmãs revelaram os segredos obscuros que sua macabra família escondia e onde puderam desabafar e extrapolar, libertando a dor que as remoía e maltratava por dentro. A obra de estreia de Louisa Reid não é uma história verídica, mas poderia ser. É de uma intensidade avassaladora (sem exageros) e senti isso desde o dia em que li a sinopse. Nenhum livro me marcou dessa forma e cada palavra ficou cravada no meu peito. É impossível não se envolver, é impossível não sentir os olhos marejarem, ou até mesmo derramar lágrimas involuntárias por diversas vezes. Sabe aquela expressão: “Para o mundo que eu quero descer?” Pois é!

A escrita de Reid é tão carregada de realismo, sentimento e verdade que é fácil esquecer que este livro é uma obra e ficção. O envolvimento é tão surreal que as páginas voam. Nem preciso dizer que li de uma vez, né? Confesso que ainda estou chocada com o desenrolar da história, apesar de ter imaginado determinada situação. Mas foi algo isolado, já que o restante é, de fato, surpreendente. O curioso é que a cada página a coisa toda vai ficando mais e mais assustadora. Não é do tipo que você descobre algo e pronto, a história morre. NÃO! É totalmente o contrário. Você pensa: “Essas meninas já não sofreram o suficiente?” E eis que vem mais sofrimento pela frente.

O que me deixou revoltada com tudo o que li, é a questão da mãe não fazer absolutamente NADA para mudar o quadro em que ela e as filhas viviam. Que diabos de mãe é essa, minha gente? Ok. Sabemos que tem umas mães dominadas pelos “companheiros”, ou que são péssimas mesmo e vão queimar no mármore do inferno, mas... Mas... Faltam-me palavras. Eu daria uma surra nessa Maria. Como mãe, não consigo nem imaginar meu filho numa situação dessas. Aliás, comigo esse Roderick já teria ido para a terra dos pés juntos há séculos. Hahahahaha Certo... momento de descontração. Nós merecemos, pois o negócio é MUITO tenso. Ufa!

Voltando... A trama é dividida em duas partes, onde apenas a primeira está sob os dois pontos de vista. Na segunda, apenas Rebecca narra seu presente. O livro não tem capítulos, por isso o chamei de diário. O lado positivo (Porque, né? Tinha que ter algum.) é que após ingressarem na escola, temos vida fora da redoma amaldiçoada que é a casa das garotas. Há situações que dão uma boa fluidez, diálogos e ambientes que nos fazem ter um pouco de paz – assim como para as irmãs também. Felizmente, há personagens que nos conquistam e que nos trazem esperança de um final feliz. Mas será que Rebecca vai chegar lá? E é com essa pergunta que os convido para ler esse fantástico livro, embora indique apenas para corações fortes.

Comentários
24 Comentários

24 comentários:

  1. Sabrina, adorei a sua resenha! Enquanto eu a lia, consegui sentir um pouco das emoções que vc sentiu já vc conseguiu transmiti-las pela resenha. Eu sinceramente não tinha interesse por esse livro, mas após a sua resenha estou reconsiderando e caso eu tenha oportunidade de ler esse livro com certeza o farei.
    E sobre os personagens... nossa me da uma revolta em ver pais manipuladores e extremamente rigidos, me lembrei do livro As virgens suicidas, só que nesse livro a mãe era "apenas" super protetora.

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  2. Nossaa este livro é emocionante, a menina si sentir muito só, os país não dão liberdade de ela si expressão além do mais ela guarda um segredo com ela. Apesar dos pais fazerem horrores com ela sempre ajudava sua irmã. Isto é uma verdadeira historia,acho que eu não aguentaria passar por tudo que ela passou ..

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  3. Fiquei muito interessado em lê-lo, pois tenho coração forte e adoro histórias pesadas, que fazem eu sentir um mal-estar, que chega a ser prazeroso por ser uma história de ficção (mas que poderia ser real, complicado isso!).

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  4. Esse livro está em minha lista de leitura, é bastante comovente, pelas resenhas que já li, todas mostram isso. E louca para saber porque ela morre.

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  5. Muito boa a resenha...pelo título eu esperava outra história, mas realmente parece que você tem milhões de sensações ao ler esse livro, vou ver se coloco ele na lista.

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  6. Não imaginava que esse livro tinha essa carga de emoção tão forte assim. Pelo jeito é um turbilhão de emoções que o leitor sente no decorrer da trama. Só em ler essa resenha, já fiquei com ódio mortal dos pais dessas garotas.

    @_Dom_Dom

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. O que dizer desse livro que já está a caminho da minha casa, prestes a ser lido?
    Ando ultimamente procurando por livros que sejam "fortes", carreguem mensagens e histórias com assuntos delicados, e com Corações Feridos foi paixão a primeira vista, a capa fantástica, história surpreendente, tudo que eu procuro em um livro e com esse tenho certeza que não me decepcionarei.

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  9. Eu tenho esse livro mais ainda não o li, tenho outros na frente da lista de espera, mas espero ter oportunidade logo para lê-lo.

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  10. Já vou começar comentando que você acertou e muito nessa resenha. Só por seus comentários eu senti o quanto o livro é intenso e fiquei intrigado com a história e principalmente com os pais, que em certo ponto me lembraram a alienação religiosa da mãe da Carrie no livro Carrie, a estranha.
    Confesso que não é o tipo de livro que costumo ler, apenas por indicação ou quando leio alguma resenha que me deixe com curioso e foi justamente isso que aconteceu. Eu já senti algumas palpitações em alguns momento em que você descrevia o sofrimento das gêmeas e acredito que no livro esse sentimento só irá aflorar,
    Agora vou atrás do livro e espero que ele seja tão bom quando foi a resenha.

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  11. Céus, que resenha é esta? Ou melhor que livro é este? Quero muuuuuuiito ler este livro, fiquei na curiosidade, apesar de achar que e uma história triste :/
    Mas, parece ser bem bom. A capa diz muito sobre o conteúdo do livro, pelo menos e o que pareceu lendo a resenha. Vai para minha wishlist agora!
    Beijos.

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  12. Toda resenha desse livro é positiva. E sei que preciso ler o quanto antes.
    Ótima resenha também

    Bj,
    Van
    bookistheanswer.blogspot.com.br

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  13. Gente, só de ler a sua resenha, o livro entrou pros 10 primeiros da minha wishlist. Meu coração já bateu mais forte só em imaginar o sofrimento dessas meninas, e eu acho que vou sofrer tudo junto, do jeito que sou hiper-sensível e manteiga derretida. Já tinha lido a sinopse, mas confesso que não me chamou tanta a atenção como a sua resenha. Parabéns, ficou ótima! Aliás, já compartilho da sua indignação da mãe não fazer nada, mas... Não sei, também fico pensando em como seria se fosse eu no lugar. A gente sempre fala que faria isso e aquilo quando está de fora, mas quando se está na determinada situação as coisas nunca são assim. Então, fico com um pouco de dó dela também. ): E com muita raiva do pai, grrrrrr!!! Btw, tô com a mão coçando já pra passar na primeira livraria que ver amanhã e comprar esse livro, aiai.

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  14. estou muito ansiosa para ler este livro. gosto muito de livros que tratam desses problemas familiares, e até de problemas pessoais mesmo, principalmente quando se trata de uma doença. este livro parece ser forte, mas muito marcante. a unica coisa que me deixa com um pé atras é o fato de não ter capítulos, por que sabe né... tem aquela coisa de: só mais um antes de dormir hahahahaha
    pretendo ler logo ele! e assim que eu ler volto aqui para te dizer o que eu realmente achei :D

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  15. Ai meu Deus, já necessito!! Já conhecia esse livro pela capa que eu amei, mas nunca tinha lido nada sobre ele, e depois do que vi aqui fiquei louuuca para tê-lo em mãos, ainda mais sabendo que vou acabar chorando com a história me deixou desesperada, eu realmente curto muito livros que me emocionem. Bjokas!

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  16. Só lendo sua resenha, fico com uma bola de meia presa na garganta, relembrando a leitura. É marcante e a sensação de impotência é avassaladora!
    Realmente uma leitura muito especial, Sabrina!

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  17. Olá Sabrina!
    Estou louca para ler esse livro, ainda mais de ouvir tantos falarem esse negócio de 'coração forte'! Sinto que vou chorar já na metade do livro, mas eu adoro livros assim *-*
    Ótima resenha :) Me deixou muito ansiosa pela leitura.
    Beijos,
    Ana M.
    http://addictiononbooks.blogspot.com.br/

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  18. Meu deus, q tematicazinha pesada essa ai não?
    Menina com deformidades, irmã normal mas ruim, mãe omissa e pai religioso doido controlador. Todos os ingredientes para uma drama pesado então ai.
    A arte da capa ficou meio ruim, mas a historia em si me chamou bastante a atenção, acho q vou ler.

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  19. "A obra de estreia de Louisa Reid não é uma história verídica, mas poderia ser."
    Livros como esse são raros. Quando um autor deixa de ser ele, para se torna outro durante a escrita. Essa sensação descrita acima só ocorre quando a o autor morre, para que a obra brilhe.
    Pelo enredo, confesso que me lembrei um pouco da obra de Clarice Lispector, posso estar enganado, como algo intimista, cativante, emocionante, psicólogico, não sei, mas lembrou-me muito.
    Gostei muito da resenha, uma das melhores que já li aqui no site. E verdadeiramente quero ler este livro, confesso que tenho um coração forte, não é a toa que os Dramas são meus livros preferidos.
    Parabéns pela resenha!
    Amei muito!!!

    Jônatas Amaral
    alma-critica.blogspot.com.br

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  20. Eu já li várias resenhas desse livro, mas essa que me convenceu de que não é nada superficial como ~boa parte dos dramas lançados ultimamente tem sido.
    O que mais me preocupa quando pego um livro com temas como esse para ler é a escrita e o desenvolvimento. As vezes, por mais interessante e original que a história seja, a escrita pode acabar maçante já que drama envolve muita emoção, muita entrega de quem escreve.
    Não considero que eu tenha um coração forte, então, vou ser bastante cautelosa quando for pegar para ler. Mas, sim, é um livro que eu leria!

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  21. Faz algum tempo que só ouço coisas boas sobre esse livro. Parece ser um daqueles que dá para desidratar de chorar (ainda mais se a pessoa for chorona como eu)
    Estou pensando em comprá-lo se eu me deparar com alguma promo (Olá Black Friday)
    Eu realmente gosto muito desse tipo de livro, estou até me perguntando pq ainda não o li.
    Vc é culpada por aguçar ainda mais a minha vontade, assim não há dinheiro que aguente.. tô falida kkkk
    amei a resenha... parabéns :)

    bjuuux

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  22. Fiquei comovida com a história das duas garotas, principalmente pela Rebecca. Perde a irmã que ama e vive num mundo cheio de dor e sofrimento causados por aqueles que deveriam protegê-la e amá-la. Sua resenha me deixou ansiosa por saber mais sobre a Rebecca.

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  23. Nossa...
    Esse parece ser um livro totalmente bizarro, envolvente e fascinante, se é que me entende.
    Estou totalmente curiosa e fascinada, seu resenha realmente me conquistou.

    Abraços
    Vivi

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  24. Parabéns pela resenha, pois ele veio completamente com a sua opinião, ficou muito bem feita e apesar da indicação para apenas pessoas fortes eu fiquei curiosa para ler, mulher, o que essas meninas passam? Sinceramente estou com medo de descobrir, não sei se eu consigo ler.

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